Desde o começo de março, quando começou o conflito no Oriente Médio, os preços das passagens das três principais empresas aéreas do Brasil — Latam Airlines, Gol Linhas Aéreas e Azul Linhas Aéreas — subiram 22% na comparação com um ano antes, e 31% em relação ao mês anterior. A informação é de um relatório do J. P. Morgan feito com uma ferramenta própria de monitoramento de tarifas.
“Isso sugere que as companhias aéreas aumentaram as tarifas em antecipação à recente alta nos preços do combustível de aviação”, diz o relatório dos analistas Guilherme Mendes e Julia Orsi.
Especialistas alertam que o aumento dos preços das passagens no Brasil é inevitável, principalmente porque as empresas vendem passagens para o médio e longo prazos. A incerteza sobre o preço do querosene e a duração da crise no Irã estão por trás do reajuste.
Defasagem de 45 dias nos ajustes
No relatório, os analistas destacam que, no mercado brasileiro, existe uma lacuna de 45 dias entre a variação do preço da commodity no mercado internacional e o ajuste nos preços locais. Em sua apresentação de resultados de 2025, no dia 27 de março, a Azul apontou essa defasagem como um ponto positivo.
“Essa defasagem cria um impacto mais gradual em nossas despesas com combustível, permitindo-nos ajustar proativamente preços, capacidade, e ações de gestão de receita”, constava na apresentação da companhia.
A Azul ainda completou que as distribuidoras acrescentam, em média, mais 25 dias para o pagamento do querosene de aviação, criando outra camada de proteção para o caixa das aéreas.
Mesmo assim, o impacto é grande. Segundo a Azul, o combustível representa cerca de 30% de suas despesas. Para compensar um aumento de 10% no preço do QAV, seria preciso elevar em 2,5% a receita total.
Além de usar frota com aeronaves mais econômicas, como as da Embraer, medidas como ajuste de malha e maximização de resultados em rotas exclusivas vêm sendo usadas para reduzir o efeito do aumento do querosene.
Medidas do governo e da Petrobras
A Petrobras reajustou em 55% o preço do querosene de aviação vendido às distribuidoras a partir de abril, seguindo a disparada do petróleo no mercado internacional após o início da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Depois, anunciou que o pagamento desse aumento seria escalonado, com apenas 18% no primeiro mês e o restante parcelado em até seis vezes.
O governo anunciou um pacote de medidas para tentar frear a alta nos preços dos combustíveis. Para o QAV, a proposta é suspender a incidência de PIS/Cofins, permitir que as companhias posterguem pagamentos de taxas de navegação aeroportuária e oferecer linhas de crédito de cerca de R$ 9 bilhões para reestruturação financeira e capital de giro.
Alta de preços no primeiro trimestre
No primeiro trimestre de 2026, de acordo com o relatório do J. P. Morgan, as tarifas aéreas da Latam, Gol e Azul subiram 16% em um ano e 12% na comparação com o trimestre anterior. Houve recuo no preço das passagens de lazer, enquanto as do segmento de negócios subiram.
Os analistas destacam que, entre as três companhias, apenas a Latam “possui uma estratégia significativa de proteção contra a variação dos preços dos combustíveis, com 36% do seu consumo de combustível para 2026 já protegido por contratos de hedge”.
As posições de hedge da Latam, conforme a apresentação de resultados do quarto trimestre de 2025, mostram o custo estimado coberto por esses contratos em 2026: 48% no primeiro trimestre, 44% no segundo, 31% no terceiro e 22% no quarto.
