O Brasil pode se tornar um dos possíveis beneficiados da crise iniciada no Oriente Médio após ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã, mesmo estando a mais de 10 mil quilômetros de Teerã. Analistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que essa oportunidade surgiu após o anúncio do Irã, na segunda-feira, de fechar o Estreito de Ormuz.
Por esse estreito passa cerca de 20% da produção mundial de petróleo. Com o bloqueio, países da Europa e da Ásia, como China, Índia e Japão, podem precisar buscar novas fontes de petróleo bruto. Isso poderia impulsionar as exportações brasileiras do produto.
Desde 2024, o petróleo se tornou o principal item da pauta de exportação do Brasil, à frente de soja e minério de ferro. Especialistas dizem que o país está bem posicionado para atender uma eventual maior demanda, pois já tem uma rede de portos e oleodutos para exportação e porque a rota até esses mercados não passa por pontos sensíveis como Ormuz.
No entanto, eles ponderam que o Brasil só se beneficiaria se a situação se prolongar pelas próximas quatro semanas ou mais e se o país conseguir aumentar sua produção além dos níveis atuais.
Os ataques dos Estados Unidos e Israel ocorreram no sábado e atingiram alvos iranianos, incluindo prédios oficiais e civis. O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, foi morto, assim como outros três oficiais do alto comando, de acordo com informações. O presidente norte-americano, Donald Trump, justificou as ações como necessárias para eliminar ameaças iminentes do regime.
O Irã respondeu disparando mísseis contra Israel e instalações dos EUA em países do Golfo Pérsico. O fechamento do Estreito de Ormuz foi anunciado por um porta-voz da Guarda Revolucionária. A passagem, com 33 quilômetros de largura, é vital para o transporte de petróleo de vários países árabes, além do Iraque e do próprio Irã.
Matt Smith, consultor da empresa de análise de dados Kpler, afirma que os maiores compradores do petróleo que passa por ali são nações asiáticas. Ele destaca que a China consome metade de todo o petróleo do Oriente Médio. Se a crise continuar, o Brasil seria uma opção viável para suprir essa demanda.
Dados do governo brasileiro mostram que a China já é o principal destino do petróleo exportado pelo Brasil. Em 2025, as exportações totais de petróleo bruto somaram US$ 44 bilhões, sendo que US$ 20 bilhões (45%) foram para a China.
O presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), Roberto Ardenghy, diz que ainda é cedo para estimar os benefícios, mas se a crise se agravar ou se mantiver, o Brasil pode ser um dos potenciais favorecidos. Ele menciona que os estoques estratégicos dos principais países duram cerca de três ou quatro meses.
Outros países, como Argentina, Nigéria e Guiné Equatorial, também poderiam surgir como fornecedores alternativos. Smith complementa que, com a prolongação da crise, consumidores da Europa também poderiam buscar o Brasil.
Ardenghy alerta, porém, para a capacidade de produção brasileira. O país produz, em média, 3,6 milhões de barris por dia e exporta 1,6 milhão. Ele estima que até 2029 a produção possa chegar a 4,2 milhões de barris, mas no curto prazo seria difícil atender a demandas adicionais de forma imediata.
Os efeitos da crise já são percebidos no mercado financeiro. As ações preferenciais da Petrobras subiram 3,57% entre sexta-feira e terça-feira, acompanhando outras petroleiras globais. A expectativa é que o aumento do preço internacional do óleo eleve as margens de lucro dessas empresas.
Analistas e o governo brasileiro avaliam que o impacto sobre o Brasil seria misto. Por um lado, o aumento no preço do petróleo pode elevar os dividendos que o governo federal recebe da Petrobras, seu principal acionista. Em 2024, último ano com dados disponíveis, esses repasses somaram R$ 28,8 bilhões.
Por outro lado, um preço mais alto do petróleo no mercado internacional poderia pressionar os custos de combustíveis no mercado interno, com efeitos sobre a inflação. O equilíbrio entre esses fatores definiria o ganho líquido para a economia brasileira em um cenário de crise prolongada no Oriente Médio e de restrições no fluxo global de petróleo.
