Por muito tempo, o ideal de beleza para o braço feminino era um membro magro e delicado. Bíceps muito grandes ou tríceps marcados não eram considerados bonitos, mas os tempos mudaram: agora, as mulheres buscam braços fortes.
Antes da questão estética, existe uma dimensão física. Atualmente, entende-se que músculos são sinônimo de saúde, proporcionando uma vida mais longa e com maior independência. Isso vale para o corpo todo, incluindo pernas, abdômen, costas e, naturalmente, os braços.
O preparador físico Marcio Atalla relata que, na academia, costuma ouvir de mulheres, inclusive com mais de 70 anos, que “hoje é dia de treinar braço”. Isso mostra como a musculação se tornou importante para diferentes perfis.
O Brasil terá em breve mais pessoas acima de 60 anos do que abaixo de 18. A intenção é viver esses anos com autonomia. Carregar uma sacola, pegar uma mala, colocar coisas no lugar, tudo isso é importante. A maior bandeira é viver o máximo de tempo possível com independência. Para realizar nossas atividades, precisamos de músculo e força. Por isso esse trabalho é mais valorizado hoje, avalia Atalla.
Segundo ele, nos últimos dez anos, o Brasil passou a admirar não apenas o visual esguio de Gisele Bündchen, mas também a força de Gracyanne. Isso leva as pessoas a buscarem um corpo mais musculoso.
No entanto, conquistar um braço definido continua sendo um desafio para a estrutura corporal feminina. Primeiro, porque os músculos dos braços são menores do que os das pernas. Segundo, porque são áreas onde as mulheres têm menos receptores para queima de gordura, daí a dificuldade de eliminar a gordura conhecida como “tchauzinho”.
É muito difícil para elas alcançarem aquele braço sequinho, definido e forte, também por uma questão hormonal. Para isso, seria necessário ter uma genética muito favorável e treinar intensamente. O lado positivo dessa história é a consciência de que é bom malhar o corpo como um todo, completa o preparador.
Embora seja difícil alcançar na prática, essa mudança de padrão estético carrega simbologia. A história dos bíceps gigantescos do marinheiro Popeye, o herói forte que salvava a donzela magra Olívia Palito, já não encanta como antes.
Para a psicóloga Julia Bittencourt, autora de livros sobre psicologia e saúde da mulher, essa mudança é uma questão cultural, da representação da mulher em cada época da sociedade.
Antigamente, a mulher era cuidada. Precisava ter essa feminilidade, o braço fininho. Era considerado bonito, essa delicadeza, essa imagem frágil. Hoje, a mulher é empoderada. Com o feminismo e o reposicionamento da mulher na sociedade, isso acaba sendo visto também através do corpo, porque o corpo comunica muito. A mulher é forte, tem um braço forte, diz Bittencourt.
Segundo ela, a mulher atual dá conta de tudo, e isso se manifesta na vida prática. O braço tem esse símbolo de carregar. Antes, a mulher precisava de um companheiro, um homem para ajudar. Agora, ela cuida de si mesma, não precisa pedir ajuda para colocar a mala no avião ou levar compras. Essas coisas eram associadas ao homem, e agora a própria mulher faz. Acaba sendo um símbolo que expressa força, autocuidado e independência.
Ela também observa que a roupa de academia passou a ser valorizada pela sociedade, associando o autocuidado a um status, de quem tem tempo e recursos para cuidar do corpo.
Além disso, enquanto o treino de glúteos e pernas muitas vezes visa um corpo desejado pelos homens, os braços não são um fator de atração tão forte para o olhar masculino. Isso talvez impacte mais a atenção das próprias mulheres, seja por admiração ou incentivo.
No entanto, o que parece ser um símbolo de independência pode se tornar outra cobrança, caso não haja limites para a exigência estética.
Vira um sonho de consumo, e vejo que vem com peso. Tem mulheres que falam “ah, eu malho e não fico assim”. Claro, é uma estética de pessoas que treinam quatro horas por dia, enquanto você tem seu trabalho, cuida do filho, arruma a casa. Aí as mulheres se sentem frustradas, incapazes, inadequadas. E isso acaba sendo mais uma cobrança, mais um controle do corpo feminino, pondera a psicóloga.
É nessa linha que segue a pesquisadora Maria Carolina Medeiros, professora da FGV Comunicação.
Toda hora o ideal de beleza muda, e aí tem todo um movimento de consumo. Para ter esse braço torneado, vai precisar ir para a academia, ou às vezes usar suplementos. Uma época dizem que bonito é ter seio grande, então tem uma moda de colocar silicone. Depois dizem que bonito é ter pequeno, e aí tem uma moda de retirar as próteses. Uma hora é a sobrancelha grossa, com o boom da micropigmentação, depois não é mais. Estamos falando de movimentos que têm a mesma raiz, que é uma sensação de incompletude da mulher.
De acordo com a pesquisadora, houve uma mudança de compreensão, mais forte a partir dos anos 1950 no Brasil, de que a beleza pode ser adquirida. Até então, a ideia era de que a beleza era um dom divino.
Então a beleza não é mais uma coisa divina, mas fruto de esforço e sacrifício. Ela passa a ter um significado de moralidade. Ou seja, se eu sou feia, é porque sou desleixada, explica Maria Carolina. É onde entram os braços esculpidos, pelas análises que tenho feito: com os medicamentos para emagrecimento ficou mais fácil ficar magra, e aí entra esse signo de que “estou me esforçando o suficiente, porque sou disciplinada”. Ter um corpo esculpido, com braço torneado, só vem pelo esforço e pelo exercício físico.
Outro ponto é que os braços estão muito mais expostos no dia a dia do que o abdômen, que praticamente só aparece na praia.
O ideal de beleza cada hora vai para um lado, são os braços agora. No passado foram outras coisas e no futuro serão outras. Não acho que é um fenômeno isolado. É multifatorial. Tem a dimensão estética, a questão da saúde e a vontade de se diferenciar pelo esforço, finaliza a pesquisadora.
A busca por braços fortes reflete, portanto, uma intersecção complexa entre saúde, estética, independência feminina e pressões sociais. A discussão sobre o tema segue relevante, especialmente considerando as diferentes perspectivas sobre autocuidado, empoderamento e as cobranças que continuam a existir sobre o corpo da mulher. O caminho para um equilíbrio parece passar pela valorização da saúde e do bem-estar individuais, sem cair em padrões excessivamente rígidos ou inatingíveis.
