Tropa de Elite 2, assim como seu antecessor, é um filme catártico. Daquele tipo de filme que você assiste e se coloca no lugar, sofre, vibra junto em algumas cenas. Você vê os personagens tomando atitudes e reage, porque gostaria de ser você fazendo aquilo. Tropa de Elite 2 não é um filme bonzinho, mas, quem disse que o mundo à nossa volta é?
O outrora Capitão, agora Coronel Nascimento, vivido novamente com maestria por Wagner Moura está de volta. O personagem, que nunca foi mocinho ou bandido (apesar de assim ter sido saudado por muitos, que se dividiam entre os que o achavam fascista e os que o viam como um salvador) cresceu à frente do BOPE ao mesmo tempo em que viu sua vida pessoal desmoronar. Pelo batalhão, Nascimento perdeu seu casamento e foi, gradualmente, se afastando do filho, que via no padrasto alguém para se espelhar. Assim, logo na sequência inicial acompanhamos a sua derrocada dentro do BOPE numa ação mal-sucedida dentro do presídio de Bangu I. Mas, como trata-se de Coronel Nascimento, mesmo com um resultado sanguinolento, ele acaba ‘caindo para cima’: vira sub-secretário de segurança do Rio de Janeiro.
Aliás, tenho de comentar as fortíssimas cenas da ação em Bangu I. De um realismo absurdo, as cenas podem remeter, bem de longe, à Carandiru. Seu Jorge, vivendo um chefe do tráfico que procura o poder total dentro da prisão, entrega uma interpretação visceral. E acaba sendo o desastre dessa operação que nos apresenta efetivamente ao Deputado Fraga, atual marido da ex-mulher de Nascimento e defensor e articulador da luta pelos direitos humanos. Fraga acaba tornando-se um contraponto ético a Nascimento na história e é interessante como os dois, que a princípio são díspares, acabam unidos pelo menos objetivo no final da projeção.
Como bem diz o subtítulo do filme “O Inimigo Agora é Outro”, com o BOPE desmantelando o tráfico em várias regiões do Rio de Janeiro, surgem as milícias. E o milicianos se utilizam de um intrincado jogo de poder para arrecadar os dinheiro nas favelas; pior, fazem isso dentro da máquina política, o que gerou, pelo menos em mim, sentimentos do tipo: que merda de sociedade é essa em que vivemos?
Dentre os novos personagens, não há como não destacar a interpretação de André Mattos. Dando vida ao personagem Fortunato, um apresentador de televisão verborrágico e sensacionalista, não há como não compará-lo à vários nomes conhecidos de nossa televisão aberta que, gritam a plenos pulmões que a cidade está largada enquanto eles próprios se beneficiam de ações promovidas pelo mesmo governo que movimentam ao seu bel prazer no ar.
Dos antigos personagens, vemos novamente em ação Mathias, interpretado por André Ramiro, que seguindo os passos de Nascimento, age com seu mentor e cresceu no BOPE até ser afastado dele como bode expiatório da fracassada ação que abre o longa. Assim, quando vemos o personagem, no meio do longa, novamente numa posição que conhecemos (comandando um batalhão do BOPE, com direito à tortura como nos acostumamos no primeiro filme), vibramos com atitudes violentas e desprezíveis mas que agradam aos sádicos que todos alimentamos dentro de nós, consciente ou inconscientemente. Assim, o desfecho de Mathias é um baque para todos que não esperavam pelo desenrolar daquela história.
Um ponto alto da história é o relacionamento do Coronel Nascimento e seu filho. Como Nascimento não sabe demonstrar seus sentimentos é interessante observar a dinâmica dele com o rapaz que, até para provar que não tem medo do pai, acaba assumindo a posse de 100 gramas de maconha em determinado momento da história. E é o amor de Nascimento por seu filho, aliado à toda decepção que passa a sentir pela PM e pelo sistema que nos leva ao auge da história, na sua parte final.
Com uma narrativa ágil e efeitos de primeiro mundo, Tropa de Elite 2 conquista os antigos fãs da história e se renova ao inserir novos elementos. E, ouso dizer, que o faz de forma tão boa que incluo o filme num rol muito seleto: o das continuações que conseguem superar os originais.
Por isso, vá sem medo ao cinema, não peça pra sair! Tropa de Elite 2 é mais do que um filmaço, é um choque de realidade esfregado na sua cara mostrando quão podre é o sistema no qual estamos inseridos. E, desculpem-me, choques de realidades são sempre necessários para que acordemos um pouco e saibamos que por mais colorido que seja o mundo à nossa volta, a realidade é bem diferente e cinza. E todos nós somos engrenagens dessa máquina falida chamada sociedade.




[...] para que eles fiquem calados sobre as sujeiras que viram. O bom e velho suborno, ou, como dito em Tropa de Elite 2, “caixa SEI”. O papo foi meio sério, mas eu achei bem conduzido pelos [...]