Em sua quarta parceria juntos, Leonardo DiCaprio e Martin Scorsese (Gangues de Nova York, O Aviador e Os Infiltrados) chegam à excelência. Pois Ilha do Medo (Shutter Island, no original) é, no mínimo, um ótimo filme. Como cinema, como arte, como entretenimento. Ilha do Medo é daqueles filmes que te deixam gruadado na cadeira, prestando atenção aos mínimos detalhes e que, mesmo assim, consegue te pregar uma peça no final. Sabe aquela coisa que Shyamalan conseguiu fazer em O Sexto Sentido e nunca mais conseguiu fazer do mesmo jeito? Scorsese faz aqui, e o faz magnificamente.
Logo numa das primeiras cenas, vemos o personagem de Mark Ruffalo brincando sobre a loucura ser contagiosa. Mas, com o andamento do filme, somos até mesmo levados a acreditar nessa possibilidade.
No filme acompanhamos Teddy Daniels e Chuck Aule, personagens de Ruffalo e DiCaprio, chegando à Shutter Island, que é, na verdade, um manicômio judicial. Estão na ilha, à princípio, para investigar o misterioso desaparecimento de uma paciente da instituição. Entretanto, aos poucos, vamos acompanhando um triller de suspense, que mistura realidade com sonho, lembranças com alucinações, criando climax e anti-climax que nos deixam enervados e aguardando o que a projeção ainda nos reserva.
Com um elenco afinado, não vemos uma atuação que poderíamos chamar de mais ou menos em todo o longa. DiCaprio está excelente como o atormentado investigador, Mark Ruffalo cria um tipo amigo a quem logo nos afeiçoamos, Ben Kingsley chega a dar medo em suas aparições e Michelle Williams surge hipnótica (como está se habituando a fazer desde sua indicação a melhor atriz coadjuvante por Brokeback Montain, que não foi por seus lindos olhos). Entretanto, até mesmo as menores participações são vividas com tamanha entrega, que não dá pra destacar ninguém. Emily Mortimer, Max von Sydow, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley e demais estão excelentes no filme.
Eu, que sempre gostei, mas nunca fui um entusiasta de Martin Scorsese, vi nesse longa todas as qualidades que o diretor possui e sabe empregar. Direção de atores perfeita, cenas bem coreografadas, cortes crus e que acompanham o ritmo do filme, fotografia claustrofóbica. Scorsese, em minha humilde opinião, entrega aqui um de seus melhores filmes, que faz jus ao excelente livro de Dennis Lehane (menção merecidíssima à roteirista Laeta Kalogridis, que conseguiu trabalhar num roteiro adaptado mantendo o que o livro – que aqui no Brasil ganhou o título de Paciente 67 - tinha de melhor).
E o que dizer do final surpreendente do filme?
(Sim, a partir de agora vou contar todos os spoilers. Então, se você ainda não assistiu ao filme, páre de ler já ou continue por sua conta e risco!)
O tal paciente de número 67, que surge no meio da história e dá nome à versão brasileira do livro de Dennis Lehane, era ninguém menos que o próprio personagem de DiCaprio. E a cena em que ele descobre essa verdade e toda seu passado obscuro, num sensacional flashback onde ele dá um show de atuação ao lado de Michelle Williams, é de arrepiar. Assim, o filme que a princípio soava um pouco sombrio, passa a soar ainda mais pessimista e triste. E, com um final nada ‘feliz’, vemos o personagem de DiCaprio se dar conta de que viver no mundo fantasioso que criou é muito melhor do que viver na sua triste realidade.
Ilha do Medo é daqueles filmes que deixará você pensativo e com vontade de assistir mais uma vez, afinal, apenas ao escrever esse texto eu fui me dando contas de várias deixas que o roteiro nos dava que indicavam o final surpreendente do filme mas que, levados pela história, não damos muita atenção: os olhares dos guardas para o personagem de DiCaprio, a total falta de intimidade de Chuck com o revólver, as dores de cabeça do personagem principal.
Assim, não tenha medo e embarque nessa viagem com Scorsese e DiCaprio. Apesar do medo, te garanto que você viverá momentos de mais pura arte no cinema!




















