Histórias Íntimas, de Mary Del Priore

historias intimas Histórias Íntimas, de Mary Del Priore

Em tempos de erotismo aflorado e de corpos à mostra, com a banalização do nu e com o duplo sentido inserido nas músicas e na cultura em geral, é difícil imaginar uma época em que as partes mais sensuais do corpo de uma mulher eram as mãos e os pés (cobertos por luvas e meias); que o banho era artigo de luxo e que “um verniz natural sobre a pele” era o comum e desejado; que as fechaduras eram artigos de luxo e, por isso, o sexo era praticado pelas matas e com o exclusivo fim da procriação. É descortinando a fascinante história da sexualidade e do erotismo no Brasil, do descobrimento aos dias atuais, que Mary Del Priore nos brinda com informações interessantes e divertidas dos hábitos que moldaram a cultura sexual do brasileiro, tornando-nos, por que não, o que somos hoje em seu livro Histórias Íntimas – Sexualidade e Erotismo na História do Brasil.

“(…) Tinha d. Pedro 24 anos e Domitila, 25. Belíssima? Não exatamente. Certo pendor para a gordura, três  partos, cicatrizes, um rosto fino e comprido, aceso pelo olhar moreno. Domitila, mãe de três filhos e acusada de adultério, tomara uma facada do marido, certa manhã em que voltara, às escondidas, para casa. O fato era conhecido na cidade de São Paulo e manchava o nome da família.”

(Trecho que descreve um pouco de Domitila de Castro Canto e Mello, a futura Marquesa de Santos, amante mais conhecida e famosa de Dom Pedro I)

Historiadora com 29 livros de história publicados, Mary Del Priore já ganhou diversos prêmios literários nacionais e internacionais, como o Jabuti, Casa Grande & Senzala, APCA, Ars Latina e outros. Seu texto é fluído e repleto de citações de historiadores e personagens da época retratada, o que soa divertido aos olhos dos leitores modernos. A moral vigente, bem diferente da vista nos dias atuais – mais elástica -, é por vezes inacreditável para o homem contemporâneo e sem muitas amarras sexuais.

“Existem milhares de invertidos que vivem maritalmente com indivíduos do seu próprio sexo. Se fosse concedido o casamento entre homens não se criaria nenhuma monstruosidade: apenas, se reconheceria por um estado de direito, um estado de fato [...] A união legal entre doentes é um direito que só os países ditatoriais negam. Se os leprosos podem casar entre si, por que devemos negar esse direito aos pederastas? Só porque aos normais repugna um ato de tal natureza?”

(Trecho que traz uma citação do autor Jorge Jaime, de 1947, tratando da relação homossexual e da “defesa” do direito ao casamento de tais.)

Tratando de um assunto interessante de modo simples, Mary Del Priore conquista leitores que, certamente, levarão o tema para suas conversas cotidianas. Eu mesmo, ao observar como a vida das gerações anteriores era complexa e pudica, pelo menos no quesito intimidade, tecia comentários sobre o assunto com quem estivesse por perto. Dos poucos hábitos higiênicos dos “primeiros” brasileiros à hipócrita postura da Igreja no assunto sexo, muitos dos temas que li no livro fizeram parte de conversas descontraídas com amigos em ambientes tão diversos quanto o meu local de trabalho e uma mesa de bar.

Histórias Íntimas tenta pincelar 500 anos da história sexual de um povo naturalmente “quente”. E acompanhar essa história pelos olhos de Mary Del Priore é um tanto quanto prazeroso. Tanto quanto espiar pelo buraco de uma fechadura.

Dia do Sexo: O Sexo na Cultura Pop

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E vocês sabiam que existe um Dia do Sexo? Pois 06 de setembro foi definido em nosso calendário como o Dia do Sexo. Como se trata de uma data super importante, não poderia deixar passar em branco e, por isso, para comemorar, elaborei esse especial que compartilho com vocês. \O/

Mas deixo bem claro que o Sem Tédio é um site de respeito e família, por isso, quase nada de sexo explícito aqui. Apenas um apanhado de referências (e dicas) ao ato em si nos mais diversos meios que movem a nossa amada cultura pop e que insistem em nos deixar SEM TÉDIO.

Com vocês, o SEXO nosso  de cada dia na literatura, cinema, música, nos quadrinhos e até nos jogos de videogame!

Na Literatura:

A CASA DOS BUDAS DITOSOS

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Escrito por João Ubaldo Ribeiro, o livro A Casa dos Budas Ditosos foi publicado inicialmente dentro do projeto Plenos Pecados, da Editora Objetiva. Com cada livro de um autor diferente contando uma história onde um dos pecados capitais fosse o fio condutor da trama, a Luxúria coube a João Ubaldo, que criou essa sexualmente envolvente história.

Aos 68 anos, a narradora do livro vai contando sua vida, desde muito jovem até o momento em que se encontra. Livre – ou libertina -, ela nunca se furtou de experimentar nenhum tipo de experiência e conta, página a página, sua vida sexual em detalhes sórdidos e minuciosos, muitas vezes descambando para o pornográfico, mas sem perder a classe, transformando o livro num verdadeiro pornô cult.

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Com o sucesso do livro, tempos depois surgiu uma peça baseada e com o mesmo nome de A Casa dos Budas Ditosos, onde, num monólogo, Fernanda Torres dava vida à personagem de João Ubaldo nos palcos, envolvendo a plateia com revelações picantes da vida daquela personagem. Um sucesso, como também foi o livro.

SEXO ANAL [UMA NOVELA MARROM]

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Com a singela prática sexual sobre a qual a outrora santinha Sandy declarou ser possível ter prazer, Luiz Biajoni criou um romance policial onde o sexo anal permeia toda a história, de forma envolvente e sedutora. Com muitos duplos sentidos.

O autor (que tem ainda em seu currículo obras de nomes sutis como Buceta [Uma Novela Cor de Rosa] e Elvis & Madona [Uma Novela Lilás]), carrega nas tintas, não se priva de incluir em seu texto palavrões, práticas sexuais diversas e todo tipo de falha de caráter em seus personagens, criando uma história que conquistará você. Sem fugir dos clichês, não será possível largar: é pra ler de uma só sentada!

No Cinema:

CALIGULA

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Dirigido por Tinto Brass, Giancarlo Lui e Bob Guccione (sim, três diretores, que foram se revezando na tarefa enquanto um a um abandonava o projeto), em 1979, Caligula conta a história da ascensão e queda do imperador romano Gaius Caesar Germanicus, o famoso Caligula (Malcolm McDowell). Entretanto, não foi por sua trama histórica que o filme ficou famoso e sim por suas cenas de sexo explícito.

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Com quase 3 horas de duração, o filme é comumente chamado de um pornô-épico, com suas cenas de orgias, sexo explícito, flagelação sado-masoquista e escatologia. Controverso, o filme foi financiado pela revista Penthouse, sendo o primeiro a mostrar atores famosos (John Gielgud, Peter O’Toole, Malcolm McDowell, Helen Mirren), envolvidos em cenas de sexo explícito.

SLEEPING BEAUTY

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A história da Bela Adormecida trazida para os dias atuais, seria essa a intenção de Sleeping Beauty? Filme australiano sem previsão de estreia no Brasil e dirigido por Julia Leigh, Sleeping Beauty conta a história de uma jovem (Emily Browning), que arranja um emprego numa “casa” onde realiza o desejo de alguns frequentadores: toma uma droga pesadíssima, entra em estado de sono intenso, e dá prazer à homens que tem o tipo de fantasia de transar com mulheres dormindo – no caso do filme, aparentemente mortas. Só há uma regra: eles podem fazer tudo, menos penetrar a moça.

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Com um argumento pesadíssimo e focando numa personagem principal perdida na vida, o filme não poupa nas cenas de nudez e sexo, mostrando que Emily Browning (assim como Déborah Secco, em Bruna Surfistinha) não se esquivou de um filme polêmico onde seu corpo é mostrado de todos os ângulos.

Na Música:

RITA LEE

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A sempre provocante Rita Lee, com suas letras cheia de insinuações e sugestões, como quem não quer nada fez todo mundo cantar o sexo, sem nem perceber, algumas vezes em sua carreira.

Do sutil convite a um Banho de Espuma, regado à  plena vagabundagem, até a pedidos explícitos para ser deixada de quatro no ato em Lança Perfume, passando pelas diferenças de Amor e Sexo, a cantora sempre usou o seu rock para cantar a relação a dois de forma divertida, bem humorada e natural. Como todo sexo deve ser.

MADONNA

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Provocante, Madonna elevou a temperatura do pop com suas músicas e clipes polêmicos. Da insinuação da primeira vez em Like a Virgin à pura blasfêmia (para a Igreja Católica) em Like a Prayer, a cantora sempre se manteve na mídia, mostrando-se dona da situação, como em Erotica, ou simplesmente incentivando todos a lutarem pelo que querem, em Expres Yourself.

Madonna é um ícone e continuará sendo. Com ou sem polêmicas. E talvez o seja porque sempre encarou o sexo de forma tão corriqueira em suas músicas e na vida.

Nos Games:

BEAT ‘EM & EAT ‘EM

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Esse vai ser lembrado apenas por aqueles que um dia já jogaram Atari. Criado pela Mystique, Beat ‘Em & Eat ‘Em foi um jogo que fez bastante sucesso basicamente por ser… proibido para menores (o que, é óbvio, fazia com que todos os menores quisessem jogá-lo).

Bobinho, se comparado a jogos atuais, o Beat ‘Em & Eat ‘Em levava para o Atari uma trama quase idiota: o jogador tinha de controlar algumas mulheres que deveriam engolir o esperma de um pênis “em erupção” que aparecia na tela. A cada 69 (infame!) pontos acumulados, o jogador ganhava uma vida extra.

CUSTER’S REVENGE

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Também produzido pela Mystique – que era uma empresa especializada em joguinhos pornográficos, o Custer’s Revenge acompanhava um caubói que tinha de escapar de várias flechas atiradas por índios. O objetivo do jogador, que comandava o caubói, era alcançar uma índia no final da tela e fazer sexo com ela.

Lançado em 1982, o joguinho para Atari gerou inúmeros protestos nos EUA vindos de organizações de direitos humanos, que diziam que Custer’s Revenge era um jogo com conotação racista e machista.

Nos Quadrinhos:

RADICAL CHIC

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Criada pelo cartunista Miguel Paiva, a Radical Chic surgiu em 1982, dentro do suplemento dominical do Jornal do Brasil. Aos poucos, a personagem foi ganhando fama e conquistando espaço. Sem papas na língua e com uma vida livre, Radical Chic é uma personagem que sempre encarou o sexo com tranquilidade, se envolvendo com mil homens e sem medo de ousar.

Inspirado no personagem, um programa de televisão foi criado e apresentado pela rede Globo, a partir de 1993, com Andréa Beltrão dando vida à Radical Chic e apresentação de Maria Paula.

Na Televisão:

Confira no Blog NaTV, uma seleção com a primeira vez de alguns personagens inesquecíveis do mundo das séries de tevê. Basta clicar aqui!

Querendo ou não, o sexo move a nossa cultura e está presente em todos os lugares. Seja nas bancas de jornais, sejo no milionário mercado pornográfico, seja nas piadinhas que são contadas em qualquer roda de amigos.

No Dia do Sexo, nada mais natural do que falar abertamente sobre o assunto e até mesmo rir da forma muitas vezes debochada em que ele é retratado à nossa volta.

Entretanto, sem mais delongas, divirta-se nesse dia que foi feito para ser usado e abusado. E se não tiver com quem comemorar, deixe seu lado nerd aflorar: aqui no Sem Tédio temos vários outros artigos para você se distrair enquanto o dia não terminar!

O Suave Sexo das Pornochanchadas

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Sexo pode ser uma coisa ingênua, principalmente quando o tempo passa e as novidades são muito mais explícitas. Aconteceu isso no cinema brasileiro. Provavelmente somos o único país no mundo que deu ao seu cinema soft pornô um nome pra lá de sonoro e atraente: a pornochanchada.

O termo chanchada vem daquelas comédias da década de 50 que seguiam uma trilha abrasileirada da grande fase dos musicais americanos. Da mistura dos números musicais com nosso humor malandro/pastelão/inocente nasceram as Chanchadas.

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Duas décadas depois o cinema nacional estava em baixa e uma reserva de mercado, imposta pela Ditadura Militar, veio dar uma luz para a situação. Em pouco tempo a mistura da ingenuidade cômica das chanchadas se misturou ao erotismo leve, e assim nasceu a pornochanchada.

O público começou a consumir cada vez mais este gênero de filme e eles passaram a ser uma mina de ouro. Praticamente até aventureiros no cinema investiam em algum título e tinham altos lucros.

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A fórmula do sucesso era criar uma história divertida e recheada de elementos maldosos, principalmente com homens tendendo ao cafajetismo e mulheres lindas e ingênuas. Claro que em determinadas cenas era praticamente obrigatório alguma nudez parcial. Na verdade, a ousadia maior era os seios descobertos das atrizes e as nádegas dos atores.

O filme considerado precursor da pornochancada, ainda na década anterior, foi o Toda Donzela Tem um Pai que é uma Fera (1966). Mas só nos anos 70 é que os sucessos absolutos apareceram, já com o mercado todo voltado para esse tipo de produção.

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Um grande exemplo é A Super Fêmea (1973), onde vemos Vera Fischer em seu primeiro papel de destaque no cinema. A trama trata de uma modelo que é selecionada para fazer uma campanha de pílula contraceptiva, que é considera pelos homens como causadora de impotência. A cena a seguir é do mesmo filme.

Outra característica inconfundível das pornochanchadas eram os títulos cheios de duplo sentido, como: Lua-de-Mel & Amendoim (1971), Cada Um Dá o Que Tem (1975). Ou até mesmo em situações de duplo sentido, que é o caso de O Bacalhau (1975),  sátira de Tubarão, onde a mocinha era comida pela criatura de outra forma.

Nesse A Árvore dos Sexos (1977), as mulheres de uma pacata cidade começam a ficar grávidas quando consomem os frutos de formato estranho.

Mas o títulos podiam também beirar o ridículo e/ou partir para um lado mais chulo: A mulher que se Disputa (1985), Elas São do Baralho (1977), Quando Abunda não Falta (1979).

A decadência começou por dois motivos básicos: a reserva de mercado deixou de existir ao mesmo tempo que as distribuidoras passaram a colocar no mercado filmes importados muito mais explícitos. O público passou a procurar o sexo não velado e não se importando da falta da característica base: a comicidade.

Os maiores produtores da pornochanchada, todos concentrados na região conhecida em São Paulo como Boca do Lixo, tentaram acompanhar a tendência também injetando cada vez mais cenas de sexo explícitos em seus filmes.

Um dos primeiros a mostrar o sexo de fato e quase dispensar as simulações é Oh! Rebuceteio (1984). Apesar da crise, ainda foi um sucesso, mas fez o gênero se perder com o caminho fácil da imitação. As principais dificuldades que se seguiram foram a fuga das estrelas. Nenhuma atriz de prestígio aceitou fazer cenas de sexo reais, então desaparecem nomes como Carla Camurati, Matilde Mastrange, Helena Ramos entre outras.

Os Bons Tempos Voltaram… Vamos Gozar Outra Vez (1985) foi um dos últimos filmes que ainda se enquadravam na primeira fase das pornochanchadas. E mesmo tendo apenas as nudez brandas era evidente que elas já se faziam de maneira forçada na história, sem nenhuma situação que as deixassem naturais.

A pornochanchada não chegou a década de 90, onde já havia sido vencida pelos pornôs hardcore importados. No entanto, esses filmes, agora já clássicos, começaram a fazer parte do cotidiano da televisão. Quem não se lembra da famosa Sala Especial da TV Record que exibia (com muitos cortes) os filmes da pornochanchadas? Na verdade, o que escapava da tesoura era a parte realmente boa: a malícia e a comédia.

E foi isso: o tempo provou que a salvação das pornochanchadas seria ter se mantido nos seus elementos definidores.