Histórias Cruzadas, de Tate Taylor

Historias Cruzadas Histórias Cruzadas, de Tate Taylor

Enquanto alguns filmes parecem concebidos para dar um passo à frente, outros apenas passeiam em cima do que já foi feito e refeito, muitas vezes sendo mais clichê do que muitas obras. Tendo isso em mente, não dá pra dizer que Histórias Cruzadas (The Help) seja necessariamente ruim, contudo, está longe de ser brilhante, ou mesmo, tão real quanto se propõe.

Falar de racismo nos EUA é algo que costuma garantir empatia. Os absurdos vividos durante toda sua história de segregação racial quase sempre conseguem prender atenção, e no filme de Tate Taylor, não é diferente. O problema é que, na medida em que se para pra pensar no enredo, muita coisa soa superficial demais, com um enfoque até pretensioso. As dificuldades dos personagens causam comoção, mas às vezes deixa a sensação de que esse é seu único objetivo. Chocar e separar a trama entre bondade e maldade, pura e simplesmente.

Partindo de Skeeter, personagem de Emma Stone, uma jornalista que decide dar voz a empregadas domésticas negras que dedicam sua vida a crianças e famílias de cor branca, o filme circula por tramas que comprovam o preconceito, ao mesmo tempo que abusa de certos estereótipos. Muitas vezes, ao invés de focar nas vítimas, por exemplo, o que se vê é uma exploração eterna de jovens mimadas que se deixam levar pelas opiniões da época. Seria algo interessante, se não soasse repetitivo. Com mais de 2 horas de duração, e um universo rico em possibilidades, é frustrante que acabe insistindo em detalhes que parecem não merecer tanto destaque. Uma certa torta de chocolate que o diga.

Esse elemento, que acaba sendo determinante na história, é repetido até a exaustão, meio que perdendo seu impacto inicial. Por alguns bons minutos, a trama se sustenta apenas nisso, o que não precisava ter acontecido. Da mesma forma, é uma pena que Minny (Octavia Spencer) acabe indo parar apenas no papel de alívio cômico, enquanto seu histórico de violência familiar, e até mesmo seus filhos, são deixados de lado. O que a salva, assim como a grande parte dos personagens, é a força do elenco, em especial a de Viola Davis e sua Aibileen.

Sem dúvida o grande destaque do filme, a atriz parece ser a mais natural dentre todas. Seu primeiro sorriso durante a história é incrivelmente marcante e significativo, de uma sutileza que falta no restante da trama. Talvez esteja exatamente nisso o que me fez não comprar a ideia de The Help, as coisas são explicadas didaticamente, definindo heroísmos e forçando a gostar das pessoas certas, nos momentos certos.

Viola Davis Histórias Cruzadas, de Tate Taylor

De novo, não é como se o enredo fosse péssimo e impossível de acompanhar até o final. Assistir não é uma tarefa torturante, de maneira nenhuma. Contudo, não convence de que essa é mesmo uma história que precisava ser contada. Muitos outros filmes que tratam de racismo são interessantes e causam a mesma revolta e reação contra o período retratado. A diferença é que eles não ganharam um indicação ao Oscar como melhor do ano.

Não existe nada de extraordinário e inovador em Histórias Cruzadas. Há até quem defenda que a trajetória de Skeeter reforça a ideia de que o heroísmo está em não ser preconceituoso, e não em sobreviver ao preconceito. Levando a ferro e fogo, o argumento torna o longa muito mais fraco, embora talvez seja uma interpretação dura demais.

Dessa forma, gostar ou não talvez dependa muito do quanto se espera dessa trama. Para ser só mais uma, não dá pra reclamar. Mas, pensando numa listinha pessoal de obras que  merecem destaque e elogios eternos, está longe de ser a mais interessante.

Filhos do Éden – Herdeiros de Atlântida, de Eduardo Spohr

Filhos Eden Filhos do Éden   Herdeiros de Atlântida, de Eduardo Spohr

Há quem diga que o problema em ter um primeiro livro bem sucedido está na expectativa pelas obras que vêm depois dele. Não sei se Eduardo Spohr sentiu alguma intimidação depois de A Batalha do Apocalipse, mas acho que já dá pra dizer que se saiu razoavelmente bem com Filhos do Éden – Herdeiros de Atlântida. Ainda que não me pareça tão bom quanto o livro de estreia, o início da trilogia (ou quadrilogia) parece ter consolidado o texto do autor.

Antes de qualquer coisa, confesso certa preguiça quando soube que seu novo projeto seria o de produzir uma história em três volumes. Mesmo que o universo explorado em suas tramas seja incrivelmente rico, tive dúvidas sobre o grau de interesse que pudesse manter. Até agora, ainda não estou enjoada ou cansada, mas não sei se terei a mesma paciência enquanto aguardo pelo fim da saga.

Kaira e Denyel, principais personagens de grande parte do livro, demoraram um pouco a me conquistar. Não sei se por se tratar de um enredo a longo prazo, mas foi um pouco difícil sentir um empatia imediata pelos dois. Ao longo das páginas, é possível conhecê-los um pouco mais e finalmente torcer para que consigam ser bem sucedidos, por exemplo, mas até que exista uma verdadeira conexão, demora um pouco. Talvez isso seja culpa do tom misterioso que acompanha parte do livro. Passamos um bom tempo tentando decifrar os acontecimentos, e isso acaba desviando um pouco o foco. Não que seja algo ruim, mas é como se pudéssemos separar tudo em duas etapas, uma recheada de perguntas, e a outra em que é possível se deixar envolver, sem precisar mergulhar em tantas teorias conspiratórias.

Claro que, como não poderia deixar de ser, algumas conspirações são necessárias. Na medida em que Levih, Urakin, Andril, Yaga, etc., são apresentados, o clima de dúvida sobre em quem confiar é inevitável. Enquanto alguns são puramente dignos de vilania, outros sempre deixam um rastro de dúvida. Por se tratar de criaturas angélicas, com regras próprias, suas atitudes nem sempre seguem a lógica humanizada, e fica difícil saber o que esperar. A existência das castas e toda sua organização é um ponto forte tanto desse quanto do primeiro livro. O detalhismo do autor nesse sentido é essencial para que a trama não se perca, com o mérito também de não se tornar repetitivo.

Os detalhes, por sinal, continuam sendo eficientes para que seja fácil imaginar uma adaptação do livro. A descrição dos cenários e dos flashbacks permitem que tudo seja visualizado de maneira clara. Os conflitos e perseguições prendem bastante a atenção, mesmo quando ainda não sabemos direito aonde a história quer nos levar.

Na verdade, acho que meu pé atrás no livro está justamente nisso. Mesmo sabendo que a premissa de Herdeiros de Atlântida seria encerrada aqui, não consigo deixar de pensar na série como um todo. Com a garantia  de uma continuação, os riscos precisam ser calculados demais, e afora uma surpresa um pouco maior, não me senti surpreendida por quase nada. A história é boa, bem conduzida, mas tão segura quanto possível. Gostaria de ter visto um pouco mais de ousadia, não sei.

Mas, apesar de não ter ficado incrivelmente empolgada, FDE é o tipo de livro que vale a pena, mesmo assim. Eduardo Spohr é um autor em que se pode confiar que escreve com cuidado, não permitindo que sua história se torne superficial em nenhum momento. E mesmo que não seja incrivelmente brilhante e inovador, isso é um grande alento.

Ainda é cedo para saber se o segundo volume, Anjos da Morte, vai se arriscar um pouco mais, mas só pelo título, já me interessa bem mais do que esse.

Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres, de David Fincher

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Dia 6 de Janeiro, quando um release CAM de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres finalmente apareceu na internet (o filme foi lançado em 21 de dezembro de 2011 nos Estados Unidos, mas só chegaria ao Brasil em 27 de janeiro), nem pensei direito antes de baixar e assistir. Não ficava obcecado com um filme com esse grau de intensidade desde a parte final de Harry Potter, e esperar outras três semanas parecia mais do que eu podia suportar.

O release era horrível, cortava parte do começo, algumas cenas não tinham imagem, mas serviu para acalmar um pouco os nervos e matar parte da ansiedade. Mas só valeu a pena essa semana, quando vi no cinema.

Ao assistir pela primeira vez, disse que talvez depois do dia 27, quando visse o filme no cinema, eu já teria uma opinião formada. Então pode ser que ainda seja o fanboy gritando dentro de mim (ele está gritando desde que sai da sessão, há uns 3 dias), mas eu gostei demais do filme, considero o melhor trabalho de David Fincher (ainda que Se7en e Clube da Luta sejam clássicos irrevogáveis) e é superior ao original sueco em todos os níveis. E que, quem diz que o sueco é melhor, está tentando se fazer de cult.

Assisti o original, Män som hatar kvinnor, há um ano e meio. Não me entendam mal, é ótimo. E mês passado, assim que terminei de ler o primeiro volume da trilogia Millennium de Stieg Larsson, assisti à versão estendida do filme, com 3 horas de duração. As adaptações foram feitas inicialmente para a TV; uma minissérie de 6 episódios, 2 para cada livro, cada um com 1h30 de duração. Depois disso, algumas cenas foram cortadas e resumiram a produção em 3 filmes de duas horas cada. E assim como o sueco fez algumas mudanças – necessárias ou não – no roteiro para tornar o livro mais “adaptável”, o mesmo ocorreu com a versão americana.

Na euforia pós-filme (que já dura 72 horas), eu gosto de tudo e acho tudo lindo. Mas afirmo com quase 100% de certeza que a Lisbeth de Rooney Mara é melhor do que a de Noomi Rapace. Rapace é uma atriz incrível e fico até feliz com seu crescente sucesso no mundo do cinema americano, mas tem alguma coisa na hacker interpretada por Mara que me chama mais atenção do que a original. Além de ser mais parecida com a personagem descrita nos livros (Larsson diz que, se vista de longe, Lisbeth poderia ser confundida com um menino de 15 anos; Rooney Mara é bem mais “miúda” que Noomi Rapace), Mara entrega uma performance silenciosamente perturbadora enquanto a atriz dos filmes suecos era um pouco mais… “efusiva”.

Algumas pessoas reclamaram da mudança no final do roteiro, e, na verdade, foi a única coisa no filme que me deixou em dúvida, ainda que não tenha exatamente me incomodado. Uma surpresa para os fãs do livro e filme original que têm a mente aberta o suficiente para se deixarem surpreender sem dar ataques xiitas dentro do cinema. Concordo que se mudassem o final de um Harry Potter, por exemplo, eu daria ataques xiitas onde quer que estivesse, mas nem vamos entrar no mérito das comparações. Os Homens que Não Amavam as Mulheres foi o melhor livro que li ano passado e nem por isso achei o roteiro de Steven Zaillian ruim. Muito pelo contrário. E ele ainda adicionou o gato de Blomkvist que ficou de fora da minissérie/filme sueca/o.

O que me revolta é A Rede Social (The Social Network), filme anterior do diretor (e que eu também gosto muito, diga-se de passagem), ter sido indicado a oito Oscars em 2011 (fotografia, direção, mixagem de som, melhor filme, melhor ator por Jesse Eisenberg, edição, trilha sonora e roteiro adaptado, levando os três últimos) e Millennium receber apenas 5 indicações (fotografia, edição, mixagem de som, edição de som e melhor atriz por Rooney Mara), mesmo sendo (pelo menos ao meu ver) melhor.

Infeliz e provavelmente Mara vá perder o prêmio para Meryl Streep, mas realmente espero que dominem nas categorias técnicas. Pelo menos como um pedido de desculpa por não terem indicado o score fantástico de 3 horas composto pela mesma dupla responsável pela trilha vencedora do Oscar d’A Rede Social, Trent Reznor e Atticus Ross.

Defendo aqui o título brasileiro: antes de saber o significado do título sueco, julgava que o americano fosse “correto” e que o brasileiro, mais um exemplo de como podemos aparecer com nomes “criativos” em vez de traduções literais. Acontece que, dessa vez, quem inventou um nome completamente diferente foram os americanos; Män som hatar kvinnor quer dizer algo como “homens que odeiam mulheres”, e o negócio da “menina com a tatuagem de dragão” é só pra mostrar que títulos completamente diferentes não são exclusividade tupiniquim.

Senna, de Asif Kapadia

Senna Doc e1326859894675 Senna, de Asif Kapadia

Não sou fã de nenhum tipo de esporte e nem costumo acompanhar nada religiosamente, nem futebol, apesar da obsessão generalizada. Por isso, o impulso que me fez assistir Senna, de Asif Kapadia, está muito mais ligado ao mito Ayrton Senna, e não ao piloto em si. Indicado ao prêmio Bafta 2012,  o documentário ficou guardado um bom tempo por aqui, até que finalmente resolvi parar para ver. E a sensação depois de seu encerramento é uma mistura de entendimento pelo que ele foi, e um certo pesar por ter sido jovem demais para acompanhar de perto seu impacto nas manhãs de domingo no Brasil.

Lembro vagamente de acordar com a música que se tornou seu tema, assim como a expressão de parte de minha família no dia em que ele morreu. Contudo, acho que foi só depois de ler O Herói Revelado, de Ernesto Rodrigues, e agora com o doc, que me dei conta do peso do esportista. Claro que já sabia de suas proezas na pista, com histórias sobre corridas e afins, mas é diferente de ver os recortes de sua vida reunidos em um filme com cara de ficção.

Narrada a partir de cenas e depoimentos do piloto, e com intervenções de figuras ligadas à sua vida – bem como algumas características narrações de Galvão Bueno -, essa não é uma obra para quem pretende desfazer a ideia de heroísmo que se tem dele. Porém, apesar do grande risco de tornar tudo motivacional demais, existe um certo equilíbrio que não o torna cansativo. Na mesma medida em que momentos de sua vida pessoal aparecem, conflitos e politicagens dos bastidores da fórmula 1 ganham bastante peso, com uma boa dose de polêmica.

Particularmente, justamente por não ser uma fã, os conflitos travados foram meus preferidos. Em todos os especiais que se vêem por aí, o lado controlado do piloto é sempre o mais apresentado. Contudo, durante o documentário, é possível desfazer um pouco dessa imagem, já que algumas discussões pontuais demonstram um lado mais humano, talvez. Além de criar uma situação clara de antagonismo, tal como costuma acontecer em uma obra ficcional.

Na verdade, chega a ser ridículo dizer isso, mas  ao longo das cenas, é impossível não manter um desejo de final feliz. Mesmo sabendo de grande parte dos passos e consequências dos principais acontecimentos, a narrativa prende e consegue causar uma reação genuína. E isso vale tanto para a morte trágica como para pequenos detalhes, como suas discussões com Jean-Marie Balestre, chefe da categoria na época,  ou ainda a disputa com Alain Prost. O francês, por sinal, é responsável pelo único momento em que aparece alguma dúvida sobre a retidão do caráter de Senna. Ainda assim, todo contexto é focado exclusivamente no lado vitorioso e persistente do protagonista, o que não é necessariamente algo ruim.

Por priorizar suas conquistas na pista, uma produção como essa não poderia seguir um caminho diferente. Assim como eu não gostaria de ver mais do que uma cena (constrangedora) ao lado de Xuxa, por exemplo, tenho certeza que dar enfoque a algum possível fracasso seria um tiro no pé. Querendo ou não, o motivo pelo qual Senna se tornou mítico está no sucesso que representou para o mundo, em especial para o Brasil vivido na época. Tenho algumas ressalvas com as imagens de pobreza extrema apresentadas para exemplificar sua importância por aqui, mas não dá pra negar sua influência na auto estima local.

Resumindo, assistir ao documentário é algo interessante e até prazeroso, por lembrar ou conhecer uma época distante. Ao mesmo tempo, cria inegáveis questionamentos sobre como poderia ter sido sua vida no esporte, caso seus rumos fossem diferentes. Não sei se dá pra dizer que é necessariamente uma obra prima, mas considerando o grande número de filmes altamente fúteis que surgem por aí, é sem dúvida uma boa opção. Possivelmente ainda melhor para quem o tem como ídolo.

Sangue Quente, de Isaac Marion

Sangue Quente Sangue Quente, de Isaac Marion

Sempre acreditei que uma história que incluísse zumbis não correria o risco de dar errado. Ao falar sobre o universo de mortos vivos, a impressão é de que é possível ter sangue e conflitos despretensiosos, em que o final feliz não é uma obrigação. Por isso, ao ler a breve sinopse de Sangue Quente, de Isaac Marion, em que o enredo é contado a partir do ponto de vista de um desses seres, imaginei milhões de caminhos, todos empolgantes. O que eu não esperava é que tudo se tornasse um mimimi romântico e motivacional.

Logo que vi a capa de perto, em que Stephanie Meyer – autora da saga Crepúsculo – admite uma paixonite pelo protagonista, fiquei com um pé atrás. Até entendo o atual apelo por vampiros brilhantes e idealizados, mas como escapar da imagem de que um zumbi come carne humana para sobreviver? E que não possui uma aparência necessariamente atraente? É aí que começam os problemas do primeiro livro de Marion. Posso estar sendo exigente demais, no entanto, ao ler uma história sobre zumbis, eu sinceramente espero que eles se pareçam com… zumbis. E esse definitivamente não é o caso.

R até começa a história sendo minimamente interessante. Saber o que se passa na cabeça de um morto vivo, e sua sensação ao se alimentar, é algo novo, com potencial. Vivendo em um aeroporto e com pouquíssimos resquícios de sua vida e identidade, o personagem narra o dia a dia daqueles que sucumbiram à uma praga que sequer sabem de onde veio. Caçando humanos de vez em quando, sua rotina é mesmo a de uma sobrevivência vazia, em que se deixa conduzir por atitudes automáticas. A grande diferença é que ele quase não parece um zumbi. Embora ostente o cheiro de um cadáver e mal consiga se expressar, quase consegue se passar por vivo, se quiser. E é justamente em meio à esses quases que tudo começa a ir ladeira abaixo. Tal como os vampiros de Meyer, as coisas começam a ser suavizadas ao extremo, jogando fora o que anos e anos de ficção construíram.

Durante o ataque a um grupo de jovens, R se alimenta de Perry, a quem começa a conhecer através de lembranças. E são essas lembranças que o fazem salvar Julie, a menina por quem sua vítima era apaixonada. E por quem ele também começa a nutrir sentimentos, mesmo indo contra sua natureza, em tese, desalmada. Chegando até mesmo a levá-la para casa, com o intuito de protegê-la. Ao mesmo tempo em que guarda pedacinhos de cérebro de sua última refeição, para poder saborear lentamente o que se passou com ele.

Nesse sentido, a premissa poderia ser bastante rica. Um zumbi, preso a um universo vazio, tendo a chance de relembrar trechos da humanidade perdida. A doença poderia ser discutida, assim como os conceitos sobre estar morto mas ainda ser humano, apesar de tudo. Porém, o que acaba ganhando destaque é o romance entre a menina salva e todo um blábláblá politicamente correto sobre como nós mesmos causamos mal ao mundo e todas as outras besteiras que acompanham toda trama que pretende ser motivacional. Auto-ajuda zumbi, tá aí uma boa descrição.

Enfim, voltando. Numa narrativa incrivelmente superficial, em que conflitos são resolvidos rapidamente, nem mesmo o relacionamento dos dois protagonistas consegue cativar. Julie decide voltar para seu abrigo (uma cidade montada, com mais de 20 mil sobreviventes), tentando fazer com que seu pai (transformado em vilão, de uma hora pra outra e sem muita clareza) não ataque o grupo zumbi. R resolve ir atrás dela, e ~se veste como vivo~, entrando no local que deveria proteger a humanidade da ameaça dos mortos. E então, tudo fica altamente confuso.

Os acontecimentos se atropelam, sem grandes explicações, caminhando para uma redenção, recheada de esperança sobre como o amor salva, e Zzzzzz precisamosZZzz acreditarZZzzz que as coisasZZzz podem mudarZZzzz. Sem dúvida, praticamente uma heresia que não merece ser divulgada. Pelo menos pra mim, já que está prestes a ganhar um filme, estrelado por Teresa Palmer e Nicholas Hoult.

Sangue Filme Sangue Quente, de Isaac Marion

Primeira imagem do filme, com lançamento marcado para agosto de 2012

Na verdade, talvez o problema seja mesmo comigo. Imaginei uma história completamente diferente, e sinceramente acredito que algumas coisas não podem ser mudadas. Ou, pelo menos, espero que o façam de maneira bem feita. A partir do momento que um autor se dispõe a criar um ‘romance zumbi’, deveria ser essencial que não tivesse medo de explorar tais criaturas do jeito que são, mortas e desfiguradas, e não como príncipes encantados que, a propósito, comeram o cérebro do ‘seu ex’.

Tudo soa muito bobo, fácil, como uma típica historinha feita para angariar fãs cegas que aceitam e abraçam qualquer amor impossível. Mas, pior do que isso, é sequer terem se limitado ao lado paixonite, e apelado também para a estratégia ‘movimento gota d’agua‘ das coisas. Sem embasamento, sem informação, só na base da boa vontade daqueles que querem salvar o mundo, mesmo sem ter certeza se ele precisa ser salvo.

Resumindo, para o público de coração muito, muito, muito aberto, esse é um livro aceitável, especialmente se estiverem no limite da carência. Caso contrário, é uma daquelas obras pra deixar guardada num canto, e torcer infinitamente para que não inaugurem uma nova modinha dispensável.