
Sempre acreditei que uma história que incluísse zumbis não correria o risco de dar errado. Ao falar sobre o universo de mortos vivos, a impressão é de que é possível ter sangue e conflitos despretensiosos, em que o final feliz não é uma obrigação. Por isso, ao ler a breve sinopse de Sangue Quente, de Isaac Marion, em que o enredo é contado a partir do ponto de vista de um desses seres, imaginei milhões de caminhos, todos empolgantes. O que eu não esperava é que tudo se tornasse um mimimi romântico e motivacional.
Logo que vi a capa de perto, em que Stephanie Meyer – autora da saga Crepúsculo – admite uma paixonite pelo protagonista, fiquei com um pé atrás. Até entendo o atual apelo por vampiros brilhantes e idealizados, mas como escapar da imagem de que um zumbi come carne humana para sobreviver? E que não possui uma aparência necessariamente atraente? É aí que começam os problemas do primeiro livro de Marion. Posso estar sendo exigente demais, no entanto, ao ler uma história sobre zumbis, eu sinceramente espero que eles se pareçam com… zumbis. E esse definitivamente não é o caso.
R até começa a história sendo minimamente interessante. Saber o que se passa na cabeça de um morto vivo, e sua sensação ao se alimentar, é algo novo, com potencial. Vivendo em um aeroporto e com pouquíssimos resquícios de sua vida e identidade, o personagem narra o dia a dia daqueles que sucumbiram à uma praga que sequer sabem de onde veio. Caçando humanos de vez em quando, sua rotina é mesmo a de uma sobrevivência vazia, em que se deixa conduzir por atitudes automáticas. A grande diferença é que ele quase não parece um zumbi. Embora ostente o cheiro de um cadáver e mal consiga se expressar, quase consegue se passar por vivo, se quiser. E é justamente em meio à esses quases que tudo começa a ir ladeira abaixo. Tal como os vampiros de Meyer, as coisas começam a ser suavizadas ao extremo, jogando fora o que anos e anos de ficção construíram.
Durante o ataque a um grupo de jovens, R se alimenta de Perry, a quem começa a conhecer através de lembranças. E são essas lembranças que o fazem salvar Julie, a menina por quem sua vítima era apaixonada. E por quem ele também começa a nutrir sentimentos, mesmo indo contra sua natureza, em tese, desalmada. Chegando até mesmo a levá-la para casa, com o intuito de protegê-la. Ao mesmo tempo em que guarda pedacinhos de cérebro de sua última refeição, para poder saborear lentamente o que se passou com ele.
Nesse sentido, a premissa poderia ser bastante rica. Um zumbi, preso a um universo vazio, tendo a chance de relembrar trechos da humanidade perdida. A doença poderia ser discutida, assim como os conceitos sobre estar morto mas ainda ser humano, apesar de tudo. Porém, o que acaba ganhando destaque é o romance entre a menina salva e todo um blábláblá politicamente correto sobre como nós mesmos causamos mal ao mundo e todas as outras besteiras que acompanham toda trama que pretende ser motivacional. Auto-ajuda zumbi, tá aí uma boa descrição.
Enfim, voltando. Numa narrativa incrivelmente superficial, em que conflitos são resolvidos rapidamente, nem mesmo o relacionamento dos dois protagonistas consegue cativar. Julie decide voltar para seu abrigo (uma cidade montada, com mais de 20 mil sobreviventes), tentando fazer com que seu pai (transformado em vilão, de uma hora pra outra e sem muita clareza) não ataque o grupo zumbi. R resolve ir atrás dela, e ~se veste como vivo~, entrando no local que deveria proteger a humanidade da ameaça dos mortos. E então, tudo fica altamente confuso.
Os acontecimentos se atropelam, sem grandes explicações, caminhando para uma redenção, recheada de esperança sobre como o amor salva, e Zzzzzz precisamosZZzz acreditarZZzzz que as coisasZZzz podem mudarZZzzz. Sem dúvida, praticamente uma heresia que não merece ser divulgada. Pelo menos pra mim, já que está prestes a ganhar um filme, estrelado por Teresa Palmer e Nicholas Hoult.

Primeira imagem do filme, com lançamento marcado para agosto de 2012
Na verdade, talvez o problema seja mesmo comigo. Imaginei uma história completamente diferente, e sinceramente acredito que algumas coisas não podem ser mudadas. Ou, pelo menos, espero que o façam de maneira bem feita. A partir do momento que um autor se dispõe a criar um ‘romance zumbi’, deveria ser essencial que não tivesse medo de explorar tais criaturas do jeito que são, mortas e desfiguradas, e não como príncipes encantados que, a propósito, comeram o cérebro do ‘seu ex’.
Tudo soa muito bobo, fácil, como uma típica historinha feita para angariar fãs cegas que aceitam e abraçam qualquer amor impossível. Mas, pior do que isso, é sequer terem se limitado ao lado paixonite, e apelado também para a estratégia ‘movimento gota d’agua‘ das coisas. Sem embasamento, sem informação, só na base da boa vontade daqueles que querem salvar o mundo, mesmo sem ter certeza se ele precisa ser salvo.
Resumindo, para o público de coração muito, muito, muito aberto, esse é um livro aceitável, especialmente se estiverem no limite da carência. Caso contrário, é uma daquelas obras pra deixar guardada num canto, e torcer infinitamente para que não inaugurem uma nova modinha dispensável.










