Um Clarão nas Trevas, de Terence Young (1967)

clarao6 Um Clarão nas Trevas, de Terence Young (1967)Desde muito pequeno, sempre fui apaixonado por suspenses. Aquela tensão que envolve essa categoria cinematográfica, que nos deixa doloridos quando o filme acaba, seguida do alívio por ter terminado, são das sensações mais apreciadas por este que vos escreve.

Estava eu um dia na locadora procurando filmes da Audrey Hepburn (já tinha assistido Bonequinha de Luxo e My fair lady) quando me deparei com esse título. Confesso que nunca tinha ouvido desse filme, mas como era um suspense com a “bonequinha”, resolvi alugar pra assistir.

Assim como Virgínia Woolf, Um Clarão nas Trevas é uma adaptação de uma peça teatral. A peça de Frederick Knott conta a história de uma mulher que ficou cega recentemente e cujo esposo não a trata com regalias por conta disso. Ele sempre deixa claro que ela deve ter sua liberdade e sua autonomia, acima de tudo. Assim, mesmo se sentindo um pouco perdida, Susy Hendrix leva sua vida normalmente, aprendendo a cada dia como não depender de ninguém. Para tarefas mais complicadas, como ir às compras, ela conta com a ajuda de Gloria, uma adolescente vizinha.

Certo dia, o marido de Susy, Sam, volta de uma viagem ao Canadá e presta um favor a uma companheira de viagem: guardar uma boneca para que ela a pegasse mais tarde. Acontece que essa boneca está recheada de drogas, o que leva três bandidos à casa de Susy para tentar recuperar seu prejuízo.

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A trama toda se desenvolve no apartamento de Susy, com os bandidos usando de todas as artimanhas para tentar descobrir onde está a boneca. Usando-se de vários disfarces, os bandidos tentam enganar e iludir a mulher cega, mas não contam com suas novas habilidades, como ter uma audição tão aguçada a ponto de reconhecer passos.

Durante boa parte do filme, a impressão que temos é que estamos vendo uma peça, com um dos atores inclusive fazendo vários papéis (disfarces). Mas o clima começa a esquentar, Susy começa a pressentir o perigo até chegar na parte final do filme, onde ela usa sua intuição e inteligência para sobreviver ao seu assassino. Seu único meio de lutar de igual pra igual? Deixá-lo no escuro, onde a vantagem é dela!

Na última parte do filme, a ação toda acontece na penumbra, o que leva os níveis de suspense às alturas, com grandes sustos incluídos. Na época, os cinemas que exibiam o filme, para entrar ainda mais no clima, baixavam a iluminação até o mínimo permitido, e na cena final, o cinema ficava totalmente na escuridão. Uma pena não termos mais esse tipo de coisa hoje em dia…

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Um Clarão nas Trevas provou, ainda em 1967, que um bom filme de suspense não precisa ter sangue e violência explícitos. A atuação intocável de Audrey (que a levou a receber uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz) e fotografia muito bem feita não deixam nada a desejar às películas atuais, e vão deixar qualquer fã do gênero maravilhado no final. E com aquele friozinho na barriga que é o máximo!

Por Tato Mansano, Que Vive a Twittar Por Aí

Quem Tem Medo de Virgínia Wolf?, de Mike Nichols

virginia1 Quem Tem Medo de Virgínia Wolf?, de Mike NicholsO estreante diretor Mike Nichols fez um excelente trabalho ao levar o roteiro adaptado da peça de Edward Albee para as telonas. Elizabeth Taylor e Richard Burton dão vida a Martha e George, um casal de meia-idade que vivem num mundo de ironia e sarcasmo, e que aproveitam da visita de outro casal para colocar os “pingos nos is” na sua relação.

Em meio a álcool e ofensas, o casal começa a se despir (metaforicamente falando) de todos os pudores e ilusões, fazendo com que a gente perceba o quanto se esconde debaixo do tapete de casamentos por conveniência. Anos de hipocrisia vão aparecendo, até que a mais grave das ilusões é desvendada.

Ao assistirmos o filme, acompanhamos o desconforto dos convidados, obrigados de uma maneira ou de outra, a ouvir toda a lavação de roupa suja e até a participar da DR mais famosa do cinema. Até quem nunca conviveu com pessoas tão perturbadas psicologicamente vai sentir compaixão pelos dois. E ódio, às vezes.

Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? (Who’s Afraid of Virgínia Woolf?, 1966) conseguiu a façanha de ser indicado a TODAS as categorias do Oscar, sendo vitorioso em cinco delas. Liz Taylor ganhou seu segundo Oscar (o primeiro por Butterfield 8) e provou que não era só um rostinho (e corpinho) bonito na tela, aparecendo como uma mulher envelhecida e com muitos quilos a mais do que o público estava acostumado a ver.

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Dizem que a própria relação do casal (casados na vida real na época) serviu de “laboratório” para dar tanta veracidade ao texto.Vale lembrar que o filme nada tem a ver com a escritora Virgínia Woolf, uma vez que a frase do título é um jogo de palavras com a canção “Quem tem medo do Lobo Mau” (“Who’s afraid of the bad Wolf”, no original), que serve de gancho para o convite ao casal para a visita à casa de George e Martha.

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Pra quem gosta de cinema com um bom texto (quase que a totalidade do filme é fala sobre fala, às vezes deixando o espectador até confuso) e não tem medo de encarar os próprios fantasmas, muitas vezes refletidos na tela, Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? é imperdível! Especialmente pra quem está solteiro e quer confirmar o “antes só do que mau acompanhado” nesse dia dos namorados.

Por Tato Mansano, Que Vive a Twittar Por Aí

O Que Teria Acontecido a Baby Jane?, de Robert Aldrich

baby jane O Que Teria Acontecido a Baby Jane?, de Robert AldrichSempre fui um cara que gosta de filmes. Desde muito pequeno, um dos meus programas preferidos era ir até a locadora, escolher os filmes e voltar pra casa muito faceiro. Tudo bem que na época minha parte era escolher entre Turma da Mônica e o Bicho Papão ou A Princesa Xuxa e os Trapalhões, mas sempre acabava vendo os filmes que meus pais alugavam (Top Gun, Dirty Dancing, entre outros).

Depois de mais velho, morando em uma cidade maior, onde as salas de cinema ainda não eram igrejas evangélicas, conheci a tão aclamada “magia” do cinema. Lembro-me que um dos primeiros filmes que vi foi Batman, com Michael Keaton e a estridente Kim Basinger. E foi paixão à primeira vista. O amor só viria mais tarde…

Sempre fui um pouco preconceituoso com filmes em preto e branco. Com filmes antigos em geral. Os únicos que me agradavam eram os épicos (Jasão e os Argonautas, Os Dez Mandamentos…), e ainda sim, poucos. Até conhecer um amigo que ADORAVA filmes clássicos, e me convidou a assistir o filme que escolhi para a “estreia” aqui no Sem Tédio.

O Que Teria Acontecido a Baby Jane? (What Ever Happened to Baby Jane?) é um filme de Robert Aldrich que fala de duas atrizes já idosas, que por motivos diferentes tiveram suas carreiras fracassadas. “Baby” Jane Hudson (Bette Davis) era uma atriz mirim que simplesmente não foi convidada fazer nenhum outro papel no cinema (como tantas que conhecemos hoje em dia), e sua irmã Blanche Hudson (Joan Crawford) abandonou a carreira depois de um acidente que a deixou presa à uma cadeira de rodas. E à mercê da irmã.

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Sozinhas, morando em um casarão às custas de Blanche, vemos Baby Jane tornando-se cada vez mais obcecada em retomar sua carreira e a ter fama novamente, não importando muito como chegar lá. Imprevisível, ela começa a maltratar a irmã privando-a até de alimentar-se (a famosa cena da bandeja coberta) e contrata um pianista para ajudá-la a ensaiar o seu show de retorno, exatamente igual ao da sua infância. A cena do ensaio, com Bette Davis cantando “I’ve written a letter to daddy” é de dar arrepios, como vocês podem conferir abaixo:

Mas, se apenas um roteiro bom e ver duas atrizes maravilhosas se superando para superar uma a outra (elas se odiavam na vida real também) não for o suficiente, esse clássico é um daqueles filmes que o final surpreende e te faz reviver mentalmente toda a história sobre outro ângulo.

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Filmado em preto e branco, mesmo em 1963, para aumentar o clima tenso em cena, O Que Teria Acontecido a Baby Jane? é um verdadeiro duelo. Bette Davis e Joan Crawford mediram forças nesse thriller impressionante, e o vencedor dessa batalha sem dúvida é o espectador.

Para aqueles que gostam de filmes clássicos e ainda não o viram (o que acho difícil), vale a pena ver. E pra quem, como eu, tinha algum “pré-conceito” com os chamados clássicos, faça um teste: assista a O Que Teria Acontecido a Baby Jane? e deixe-se envolver pelo amor à Hollywood de antigamente.

Por Tato Mansano, Que Vive a Twittar Por Aí