
Um avião aparentemente normal se desliga completamente após o pouso feito com sucesso no aeroporto JFK em Nova York. Quando conseguiram entrar no avião, as autoridades descobriram todos os passageiros mortos, com apenas quatro sobreviventes. E, durante a noite, todos os “mortos” resolveram se levantar dos necrotérios onde estavam e sair em busca de seus entes queridos. E é aí que o plano de dominação do mundo pelos vampiros tem início em Noturno (já comentado aqui), primeiro livro da Trilogia da Escuridão escrita pelo consagrado autor Chuck Hogan em parceria com o cineasta Guillermo Del Toro.
Ao contrário dos vampiros que estão em alta no mundo do cinema e da literatura hoje em dia, os vampiros da Trilogia da Escuridão não são bonitos, não se apaixonam por vivos, não se alimentam de sangue de animais ou bebidas sintéticas para poupar os seres humanos, nem brilham no escuro. O vampirismo é causado por um verme parasita que transmite um vírus que muda o DNA do infectado. Todos os pelos do corpo caem, a pele fica lisa e acinzentada, o sangue se torna branco, não possuem órgãos genitais, desenvolvem um ferrão de quase dois metros de comprimento que são utilizados para sugar o alimento e são movidos pura e simplesmente pelo sangue pulsante das veias daqueles que ainda são humanos. Uma mistura daquilo que conhecemos via filmes como zumbis e vampiros. E toda a explicação científica dada para a doença é o que dá o tom de veracidade à história, como se tudo fizesse sentido e pudesse mesmo acontecer.
Se Noturno foi uma introdução, A Queda – segundo volume da trilogia – foi um desenvolvimento-ápice, onde não parece haver muita saída ou esperança para um terceiro e último volume. A guerra agora se mostrou não ser entre vampiros e humanos, mas sim vampiros e vampiros. Uma guerra de gangues entre os Antigos e o Mestre, o sétimo vampiro original que se rebelou contra os outros seis em busca de poder e dominação do mundo.
A Queda leva o mesmo ritmo cinematográfico do antecessor. O que Hogan colaborou com suas aptidões de escrita, Del Toro colaborou com a visão cinematográfica do projeto. A história é narrada como um roteiro pronto para ser passado para as telas, sem precisar passar por um processo de adaptação. Como em um capítulo bem no meio do livro onde Eph – o protagonista – entra no Escritório de Administração de Emergências atrás de Eldrich Palmer, que está sendo entrevistado no Centro de Operações de Emergência. As “cenas” acontecem simultaneamente e vão sendo intercaladas como em um longa metragem. Adicione uma trilha sonora instrumental que induz à tensão e à adrenalina (possivelmente do Hans Zimmer, como as de A Origem ou do Cavaleiro das Trevas) e pronto, temos uma ótima cena.
Imagem do filme “O Labirinto do Fauno”
Os Tateadores, personagens criados nesse segundo volume, são crianças que ficaram cegas com o eclipse do primeiro livro e foram transformadas em vampiros para servir ao Mestre. A falta de um sentido é compensada nos outros. E a criação de tais criaturas só podem ter saído da mente brilhantemente perturbada à la Tim Burton de Del Toro. Impossível não relacionar os tateadores, a partir da descrição de como as criaturas se locomovem, com o monstro do segundo desafio enfrentado por Carmen em O Labirinto do Fauno, filme escrito e dirigido por Del Toro. E esse não foi o único trabalho cinematográfico de Del Toro que refletiu na Trilogia da Escuridão.
O primeiro filme escrito e dirigido por Del Toro foi Cronos, de 1993, que também tem um tipo de vampiro como tema. Nesse filme, o vampirismo era causado por um dispositivo lendário que presenteava com a imortalidade aquele que lhe desse seu sangue. No filme, um velho rico, doente e à beira da morte fazia de tudo para obter tal dispositivo, do mesmo jeito que Eldrich Palmer (igualmente rico, doente e à beira da morte) busca ser transformado na Trilogia da Escuridão. E o destino dos dois também acaba sendo o mesmo.
Até a metade do segundo livro, Zach, o filho do protagonista, não era nada mais do que uma possível vítima. Mas como Del Toro já havia demonstrado nos filmes que também escreveu além de dirigir, crianças são sempre muito importantes para suas histórias. Zach é um bebê que nasceu “no casulo” (sai do útero da mãe ainda dentro da placenta), acontecimento extremamente raro e cercado de lendas. Alguns dizem ser uma bênção, outros uma maldição. E em certa altura da história, enquanto buscava um livro antigo que continha a verdadeira história por trás do surgimento dos vampiros, o Mestre declara a vontade de ter o menino. E quem já assistiu A Espinha do Diabo e O Labirinto do Fauno sabe o que Del Toro gosta de fazer com crianças nas suas histórias, então o destino de Zach talvez já deva estar traçado.
A Queda é cheio de revelações, perdas e separações com um final que deixa os personagens que ainda restam sem esperanças de vencer a batalha por suas vidas. O nome do último volume da trilogia ainda não foi anunciado, mas tem previsão de ser lançado esse ano. E como a história será finalizada depois dos acontecimentos de A Queda é algo que só a genialidade de Chuck Hogan e Guillhermo Del Toro combinadas é capaz de fazer.




