As coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão…
Carlos Drummond de Andrade
Não tenho nada contra o Arnaldo Jabor. Já li alguns livros seus, normalmente gosto de suas crônicas, e acho graça de suas colunas na televisão, suas opiniões que querem ser impactantes e para mim soam apenas engraçadinhas. Por isso, fui sem uma pré-concepção para o cinema assistir A Suprema Felicidade, seu oitavo filme como diretor. Havia visto o trailer e me interessado por aquela história, por isso, numa véspera de feriado chuvosa, optei por ir ao cinema conferir o longa. Agora, depois de visto o filme, digo apenas que prefiro o trailer.
A história do longa é simples. Nela acompanhamos a vida de Paulinho, em três fases distintas, todas elas entre os anos 40 e 60, no Rio de Janeiro. Vivido por Caio Manhente, na infância; Michel Joelsas, na adolescência; e por Jayme Matarazzo, como um jovem adulto; o protagonista Paulo é uma versão romanceada do próprio Jabor, que não transferiu sua própria vida pro cinema, mas que, com mil liberdades poéticas, se inspirou nela para fazer A Suprema Felicidade. Indo e vindo no tempo, sem se preocupar com uma ordem cronológica, vamos acompanhando fatos da vida de Paulinho e montando um quebra cabeças sobre como foi ser criança, adolescente e jovem adulto nesse período. Do relacionamento dos seus pais e avós, sua relação com a vizinhança e com o melhor amigo, ao seu envolvimento com as mulheres, o longa é um mosaico de fatos da vida do protagonista.
E é aí que começam os problemas de A Suprema Felicidade. Querendo surpreender, Jabor (que é também o roteirista com a colaboração de Ananda Rubinstein) joga mil situações e começa várias histórias para logo depois abandoná-las. Assim, o que poderia ser mais profundo, acaba superficial, já que não vemos praticamente desfecho algum em quase duas horas de projeção. Da possível homossexualidade do melhor amigo de Paulinho, à personagem de Maria Flor, uma pseudo-louca-puta que não diz a que veio, passando pela história da personagem de Tammy Di Calafiori (belíssima e pagando peitinho de graça, asism como Maria Flor), NADA é efetivamente aprofundado. Tudo é simplesmente jogado, como se fosse pra constar, o que acaba não tendo efeito algum na platéia.
Outra coisa que me irritou foi a aparente necessidade de Jabor de mostrar um estilo. Ficou parecendo que ele queria ser um Almodóvar brasileiro, mas que, como toda cópia, fica sempre MUITO abaixo do original. A cena inteira do que parecia ser uma feira de prostitutas, com a morte de uma delas no final é desnecessária e gratuita, não tendo ligação NENHUMA com o resto da história. Chato, somente isso, já que nem chocante conseguiu ser.
O que é explorado até mais do que deveria, a meu ver, é a relação dos pais de Paulinho, vividos por Mariana Lima e Dan Stulbach. Nunca realmente aprofundando a questão, vemos apenas os dois num casamento infeliz com amor, se é que isso é possível. Confuso e chato, na verdade.
Já Marco Nanini tem um ótimo personagem em mãos. A meu ver, as melhores cenas do filme são de Noel, avô de Paulinho. Cheio de vida, o personagem ilumina as cenas em que aparece e nos conquista de cara. Por isso, é meio triste ver o pobre homem não resistindo ao tempo e à velhice e, aos poucos, ficando senil. E, claro, não há como não mencionar o trabalho de Nanini, que, como sempre, está ótimo.
A frase de Drummond, que abre esse texto, é também a que abre o longa. Uma pena, entretanto, que para A Suprema Felicidade, ela não possa ser aplicada. Porque, sinto dizer, nada ficará daquela história, nem mesmo boas lembranças. Porque o novo filme de Jabor é um daqueles que, quando as luzes se acendem, você já está pensando no que fará a seguir, nem mesmo dando muita importância ao que acabou de assistir.




