Confesso que não sou um grande conhecedor de cinema israelense. Mais precisamente, acredito que esse seja o segundo filme made in Israel que eu assisti (o primeiro foi o excelente The Bubble, em inglês). Entretanto, gostei muito da experiência de assistir Pecados da Carne (Eyes Wide Open, em inglês – Einaym Pkyhot, no original), que estreiou nesse final de semana com feriadão em algumas capitais brasileiras.
Pecados da Carne é um filme com uma narrativa totalmente diferente da que nós, ocidentais, estamos habituados, já que o cinemão hollywoodiano é quem nos moldou na forma de assistir a filmes. Mas, passada a estranheza inicial, não tem como não mergulhar na história magistral que nos é apresentada e que já faturou muitos prêmios em festivais internacionais.
Na história acompanhamos a vida de Aaron Fleishman, um judeu ortodoxo, pai de família com quatro filhos, dono de um açougue bem no centro da velha Jerusalém. Acompanhamos suas vida pacata e tediosa até que um jovem se abriga em seu açougue num dia de chuva. Trata-se de Ezri, um rapaz de seus vinte e poucos anos que parece ter chegado à Jerusalém atrás de um ‘amigo’.
Por uma série de fatores, Ezri e Aaron, que a princípios parecem não se entender, acabam estreitando seu contato, já que o jovem acaba trabalhando como ajudante no açougue. E o inimaginável acaba acontecendo e os dois se envolvem num relacionamento intenso, onde não se pode dizer que há paixão, mas é inegável que existe tesão. Claro que um relacionamento do tipo acaba gerando suspeita e problemas para ambos. Afinal, se em nossa sociedade algo do tipo causaria escândalo, imagine na velha Jerusalém, envolvendo dois judeus ortodoxos?
O filme segue uma narrativa lenta, mas isso não quer dizer tediosa. A história se desenrola ao seu próprio tempo, quando vamos conhecendo aqueles personagens e mergulhando em sua história. O final, em aberto e não convencional, deixa margens para interpretações diversas e acredito que esse seja um bom diferencial da história.
Interessante que em determinado momento do filme, ao ser questionado pelo rabino local porque não conseguia mandar Ezri embora, o atormentado Aaron responde: ‘Com ele me sinto vivo. Antes dele estava morto e ao conhecê-lo voltei novamente à vida!’ Sutil, singelo e bem feito, quase uma dica aos expectadores de que o importante é viver e ser feliz, não importa como.
Vale notar que a sessão que assisti, num sábado à tarde, estava lotada de pessoas, com uma platéia em sua maioria de senhores e senhoras idosos que em momento algum mostraram-se desconfortáveis com a história que assistiam e que tinha potencial para chocar os mais conservadores. Sinal de que ainda há esperança para a nossa sociedade?
Fica a dica: vale a pena conferir! Pela temática, pela forma que a história é contada e como puro entretenimento. Então, se o filme estreiou em sua cidade, não perca!


