
Os melhores romances são aqueles em que o casal protagonista encontra mais do que problemas clichês banalizados por filmes dos anos 80 para ficarem juntos (como o cara ter apenas dado em cima da garota por causa de uma aposta), ou que percebem, depois de tudo que passaram juntos, que não dariam certo no final das contas. Namorados Para Sempre, título sem vergonha de Blue Valentine no Brasil, é um desses.
Para quem – como eu – que não leu sinopses e só assistiu ao trailer em que Cindy (Michelle Williams) sapateia feliz ao som do ukulele do em breve namorado e marido Dean (Ryan Gosling), se deparar com o drama de um casal com problemas matrimoniais foi uma surpresa. Mas uma surpresa boa.
Ambos os atores já passaram do ponto de se aventurar por comédias românticas despretensiosas (Katherine Heighl, seguida por Kristen Bell, já dão sinais de assumir o cargo de regentes do gênero assim que Jennifer Aniston se der conta de que não é mais mocinha).
O projeto vinha tomando forma há seis anos, antes da tão esperada estréia e tanto diretor/autor como elenco tiveram tempo para maturar o relacionamento entre si e entre os personagens. Como em um (500) Dias Com Ela mais pé no chão – e, assim como a realidade, mais triste – a história é contada em uma espiral cronológica que volta no tempo para mostrar como o casal uma vez feliz se conheceu e se apaixonou, e avança para o presente, mostrando o poço de tristeza e ressentimento que se tornaram.
As gravações se dividiram entre presente e passado com dois meses de hiato entre elas. Os flashbacks foram filmados em película, em longas cenas sem cortes e os personagens seriam vistos no mesmo frame na maior parte do tempo possível. Já o presente foi filmado com câmera digital e os personagens apareciam separados, em close ups. Ótima representação do sentimento de proximidade e distância feita pelo autor e diretor Derek Cianfrance.
Ryan Gosling foi um dos maiores injustiçados do Oscar desse ano, que indicou Michelle Wiliams (ótima, mas nada excepcional) e o deixou de lado. Os dois estão muito à vontade com os personagens e algumas cenas dos flashbacks às vezes parecem improviso.
O “presente” não é apenas sobre um casal ordinário passando por problemas conjugais que a gente encontra em qualquer novela por aí. As comparações com o presente conturbado e o passado feliz e apaixonante cria um choque de emoções que nos guia durante o filme a partir de quando a personagem de Williams diz “como você pode confiar nos seus sentimentos quando eles podem simplesmente ir embora assim?” logo no começo do filme durante um diálogo com a avó, que diz nunca ter encontrado seu verdadeiro amor.
A trilha sonora ficou por conta dos nova-iorquinos indie do Grizzly Bear, que mesmo querendo contribuir com canções originais, não foram convidados a tempo; o jeito foi fazer uma compilação de gravações pré-existentes da banda, algumas delas apenas com a parte instrumental.
Ao contrário de (500) Dias Com Ela, que já avisa ao público no começo que é uma história sobre o amor, e não de amor, Namorados Para Sempre é as duas coisas. É sobre o descontentamento de que com o casamento, rotina, responsabilidade e filhos, fica difícil continuar sapateando no meio da rua ao som do ukulele do namorado. E que para serem “namorados para sempre”, precisam mais do que sorrisos e uma boa trilha sonora.
Originalmente Publicado em 13/04/2011.


