
Em um mundo literário juvenil dominado por bruxos e vampiros (e seus respectivos amores perigosamente impossíveis), encontramos Katniss Everdeen, cuja história não tem nenhum elemento sobrenatural – mas cuja trilogia reinou no topo das listas de Best Sellers americanos por meses e já tem 4 filmes parcialmente confirmados pela Lionsgate (o último livro será dividido em duas partes, assim como aconteceu com Harry Potter e as Relíquias da Morte e foi copiado por Amanhecer, quarto e último volume da “saga” Crepúsculo).
A adaptação cinematográfica, protagonizada pela indicada ao Oscar Jennifer Lawrence, já tem sua data estratégica de estréia marcada para 20 de Março, quase na metade do hiato entre a primeira e a segunda parte de Amanhecer, esperando já conquistar espaço nos corações enlutados dos adolescentes que perderam Harry Potter há quase um ano e perderão o amor de Bella e Edward em 8 meses. Mas assim como é impossível comparar as séries de J.K.Rowling e Stephenie Meyer, a de Suzanne Collins também é única.
A história de Jogos Vorazes se passa em um futuro pós-apocaliptico em um país chamado Panem (antigo Estados Unidos da América). Panem era dividido em 13 Distritos controlados pela mão de ferro da Capital. Quando o 13º Distrito resolveu se rebelar contra o autoritarismo do governo, a Capital o destruiu e, para mostrar que ninguém está acima de seu poder, criou os Jogos Vorazes: programa anual que escolhe dois “Tributos” de cada Distrito – um garoto e uma garota de idade entre 12 e 18 anos – que são jogados em uma arena vigiada por câmeras, que transmitem tudo o que acontece para todas as televisões de Panem, enquanto os 24 adolescentes são obrigados a matar uns aos outros, até que reste apenas um.

Katniss (Jennifer Lawrence) e o amigo Gale (Liam Hemsworth)
Quando sua irmã mais nova é sorteada como Tributo do empobrecido Distrito 12 no Dia da Colheita, Katniss Everdeen, de 16 anos, se oferece para participar da 74ª edição dos Jogos Vorazes em seu lugar. O Tributo masculino do Distrito 12 é Peeta Mellark, filho do padeiro, que mantinha uma paixão até então platônica por Katniss e já salvou a vida dela no passado – ainda que nunca tenham se falado antes do fatídico Dia da Colheita. O vencedor ganha fama, fortuna e glória. Perder significa morte. Mas até onde os personagens estão dispostos a ir? Qual é o limite quando sua história mostra crianças matando e sendo mortas por crianças? O filme mostrará atores na casa dos 20 anos interpretando adolescentes de 16, mas ainda assim a Lionsgate não ameaçará perder o público-alvo recebendo uma classificação indicativa superior a 12 anos. Os filmes serão bem menos sangrentos que os livros, correndo o risco de enfatizarem mais do que o necessário o “triângulo amoroso” entre os três personagens principais da trilogia.
Aos órfãos da série lobi-vampiresca de Stephenie Meyer que anseiam pelo triângulo amoroso entre Katniss, seu melhor amigo de caçada Gale e o colega de Jogos Vorazes Peeta, não generalizemos; o buraco é mais embaixo. O mestre da literatura de suspense Stephen King já havia demonstrado seu favoritismo a Harry Potter quando disse que enquanto a série de J.K.Rowling é sobre confrontar medos, encontrar força interior e fazer o que é certo não importando as adversidades, Crepúsculo é sobre a importância de se ter um namorado. Com Jogos Vorazes, é praticamente a mesma coisa. O tal triângulo amoroso existe, mas não é o centro da história como no romance de Meyer. Chamar Jogos Vorazes de “o novo Crepúsculo” é forçação de barra.
Collins tece uma crítica social e política rara de se encontrar em livros do gênero. Às vezes a história é até adulta demais para ter sido lançada no Brasil sob o selo da Rocco Jovens Leitores, mas aí aparecem os cidadãos da Capital com suas maquiagens de corpo todo, cabelos coloridos, tatuagens faciais douradas e cirurgias plásticas exageradas e o tom de seriedade de perde um pouco a força. Isso até você perceber que a estética dos cidadãos da Capital também é uma crítica social.
Jogos Vorazes é surpreendente. A escrita em primeira pessoa deixa o sofrimento de Katniss mais real e próximo do leitor e a personagem não é chata ou reclamona. Katniss tem uma personalidade forte de quem foi obrigada a crescer antes do tempo quando o pai morreu em um acidente nas minas do Distrito 12 e precisou cuidar da irmã criança e da mãe que perdera a vontade de viver. Se Katniss não colocasse comida na mesa, a família Everdeen morreria de fome. Além disso, Collins tem uma viciante mania de terminar cada capítulo com um cliffhanger, o que torna impossível largar o livro antes de terminá-lo.
Que os Jogos Vorazes comecem! E que a sorte esteja sempre ao seu lado.


