
Há quem diga que o problema em ter um primeiro livro bem sucedido está na expectativa pelas obras que vêm depois dele. Não sei se Eduardo Spohr sentiu alguma intimidação depois de A Batalha do Apocalipse, mas acho que já dá pra dizer que se saiu razoavelmente bem com Filhos do Éden – Herdeiros de Atlântida. Ainda que não me pareça tão bom quanto o livro de estreia, o início da trilogia (ou quadrilogia) parece ter consolidado o texto do autor.
Antes de qualquer coisa, confesso certa preguiça quando soube que seu novo projeto seria o de produzir uma história em três volumes. Mesmo que o universo explorado em suas tramas seja incrivelmente rico, tive dúvidas sobre o grau de interesse que pudesse manter. Até agora, ainda não estou enjoada ou cansada, mas não sei se terei a mesma paciência enquanto aguardo pelo fim da saga.
Kaira e Denyel, principais personagens de grande parte do livro, demoraram um pouco a me conquistar. Não sei se por se tratar de um enredo a longo prazo, mas foi um pouco difícil sentir um empatia imediata pelos dois. Ao longo das páginas, é possível conhecê-los um pouco mais e finalmente torcer para que consigam ser bem sucedidos, por exemplo, mas até que exista uma verdadeira conexão, demora um pouco. Talvez isso seja culpa do tom misterioso que acompanha parte do livro. Passamos um bom tempo tentando decifrar os acontecimentos, e isso acaba desviando um pouco o foco. Não que seja algo ruim, mas é como se pudéssemos separar tudo em duas etapas, uma recheada de perguntas, e a outra em que é possível se deixar envolver, sem precisar mergulhar em tantas teorias conspiratórias.
Claro que, como não poderia deixar de ser, algumas conspirações são necessárias. Na medida em que Levih, Urakin, Andril, Yaga, etc., são apresentados, o clima de dúvida sobre em quem confiar é inevitável. Enquanto alguns são puramente dignos de vilania, outros sempre deixam um rastro de dúvida. Por se tratar de criaturas angélicas, com regras próprias, suas atitudes nem sempre seguem a lógica humanizada, e fica difícil saber o que esperar. A existência das castas e toda sua organização é um ponto forte tanto desse quanto do primeiro livro. O detalhismo do autor nesse sentido é essencial para que a trama não se perca, com o mérito também de não se tornar repetitivo.
Os detalhes, por sinal, continuam sendo eficientes para que seja fácil imaginar uma adaptação do livro. A descrição dos cenários e dos flashbacks permitem que tudo seja visualizado de maneira clara. Os conflitos e perseguições prendem bastante a atenção, mesmo quando ainda não sabemos direito aonde a história quer nos levar.
Na verdade, acho que meu pé atrás no livro está justamente nisso. Mesmo sabendo que a premissa de Herdeiros de Atlântida seria encerrada aqui, não consigo deixar de pensar na série como um todo. Com a garantia de uma continuação, os riscos precisam ser calculados demais, e afora uma surpresa um pouco maior, não me senti surpreendida por quase nada. A história é boa, bem conduzida, mas tão segura quanto possível. Gostaria de ter visto um pouco mais de ousadia, não sei.
Mas, apesar de não ter ficado incrivelmente empolgada, FDE é o tipo de livro que vale a pena, mesmo assim. Eduardo Spohr é um autor em que se pode confiar que escreve com cuidado, não permitindo que sua história se torne superficial em nenhum momento. E mesmo que não seja incrivelmente brilhante e inovador, isso é um grande alento.
Ainda é cedo para saber se o segundo volume, Anjos da Morte, vai se arriscar um pouco mais, mas só pelo título, já me interessa bem mais do que esse.













