Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1, de David Yates

hp reliquias1 Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1, de David Yates

Acompanhar os filmes de Harry Potter, para mim, sempre foi um suplício. Leitor da saga, apaixonado pela história, sou do tipo de espectador que se revolta com artimanhas do roteiro e com mudanças em relação aos livros. Mesmo entendendo que livro é livro e filme é filme, que são obras diferentes com os mesmos personagens, eu me revolto. E apesar de continuar assistindo a filmes baseados em livros, os de Harry Potter pra mim não “desciam”. Achava os filmes bobos e que não faziam justiça aos livros. Por isso, deixei de me empolgar com os filmes e o último que vi no cinema foi Harry Potter e a Câmara Secreta. Dito isso, confesso que me arrependi de deixar Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 para ver somente agora. Com a última parte da história nos cinemas (e eu não ia deixar de me “despedir” de Harry mais uma vez), não queria cair de pára-quedas no meio da trama, sem ver como a primeira parte tinha sido levada ao ar, por isso, assisti ao filme em DVD. E, confesso, minha opinião mudou: David Yates conseguiu fazer um filme de Harry Potter à altura dos livros de J.K. Rowling.

Com um tom sombrio, o diretor conseguiu aproximar o filme do que eu imaginei ao ler o último livro da série. E a história, qualquer um já deve estar cansado de saber: com o retorno de Voldemort, os Comensais da Morte tomam o Ministério da Magia e o mundo do bruxos volta a viver o terror. Nesse meio tempo, Harry Potter é caçado por Voldmorte e parte, junto a Rony e Hermione, atrás das horcruxes, os objetos encantados que são, na verdade, partes da alma de Voldemort que ele, tempos atrás, dividiu em sete. Nessa busca, Harry tenta descobrir um pouco da história do próprio Alvo Dumbledore. Assim, depois de uma série de indícios, se depara com a história lendária das relíquias da morte, que poderão ajudá-lo em sua jornada.

reliquias1 img 500x357 Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1, de David Yates

Apesar do ritmo lento, quebrado por um ou outro confronto, o filme funciona bem. É interessante notar como Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson cresceram e melhoraram suas interpretações. Vivendo, respectivamente, Harry, Rony e Hermione, os outrora garotinhos vivem adolescentes e dão conta do recado de levar grande parte da projeção nas costas. Ao mesmo tempo, ainda que em participações rápidas, Ralph Fiennes, como Voldemort, e Helena Bonham Carter, como Belatrix Lestrange, roubam as cenas em que aparecem.

Com um final impactante, depois da dor de vermos um personagem querido morrer em confronto, vemos Voldemort tomando posse da mais poderosa varinha já criada, uma das relíquias da morte do título do filme. E assim, com os créditos subindo, ficamos ansiosos esperando pela continuação e pela parte final de uma história que marcou época e que, certamente, já é antológica.

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 já está nos cinemas e muitos já se despediram definitivamente de Harry e companhia. Eu, de minha parte, farei isso em breve. E, logo depois, compartilharei aqui as minhas impressões sobre o desfecho da saga, também dirigido por David Yates.

A Rainha, de Stephen Frears

a rainha 500x375 A Rainha, de Stephen Frears

Em 1997, a Inglaterra acabava de escolher seu novo Primeiro Ministro, Tony Blair, quando um trágico acidente de carro, em Paris, vitimou a ex-princesa Diana. A família real, sempre austera e cheia de protocolos, teve de acabar se rendendo às vontades da opinião pública, num episódio que durou quase uma semana numa verdadeira “guerra” particular entre a Rainha Elizabeth II e a imprensa britânica. É sobre essa situação específica que trata o filme A Rainha (The Queen), dirigido por Stephen Frears, e que chegou aos cinemas em 2006.

Depois da morte de Diana, a família real se recolheu em um luto privado, longe do Palácio de Buckingham, em Londres. Mantendo o protocolo, a Rainha esperava que Diana tivesse um velório privado, apenas para seus famíliares. Entretanto, o povo britânico tomou uma atitude impensada e uma comoção nacional aconteceu devido à morte de Diana. Tida como muitos como uma plebeia entre a família real, pelo menos em sua morte a opinião pública esperava o “respeito” que imaginavam nunca ter sido oferecido a Diana enquanto viva. Surgia então um impasse: manter o protocolo e a austeridade real ou ceder à vontade dos súditos.

No filme, Tony Blair faz o papel de mediador da situação, tendo de lidar com a imprensa e o público – que o viam como um líder de coração e que prestavam a homenagem devida à Diana – ao mesmo tempo em que arquitetava uma forma de que a Rainha Elizabeth revisse sua posição de monarca.

Lady Di, que vivia uma relação de amor e ódio com a imprensa e os tablóides enquanto viva, ao morrer teve sua redenção: foi acolhida por todos como um ícone da realeza britânica, que estampava suas páginas, dia a dia, com matérias sobre a frieza da família real. Com o passar dos dias e os pronunciamentos de líderes governamentais de vários países e do próprio Primeiro Ministro Britânico logo após o acidente, todos esperavam por uma fala da Rainha, que se negava a isso, já que não via Diana como um membro da família real. A opinião pública martelava que a bandeira sobre o Palácio de Buckingham deveria estar à meio palmo – algo que nunca acontecera antes, nem mesmo durante a morte de reis ou rainhas – e que a Elizabeth II deveria manisfestar seu luto publicamente, como forma de consolo à seus súditos.

Tony Blair, bem assessorado, acabou por criar o icônico termo “Princesa do Povo” ao se referir à Diana em sua primeira pronunciação à imprensa. A família real era, pouco a pouco, acuada de todos os lados para tomar uma atitude e mostrar às caras à população.

Dirigido com um tom meio documental meio ficção, por Stephen Frears, o filme conta com interpretações magistrais de Helen Mirren, como a Rainha do título – que ganhou o Oscar pelo papel – e de Michael Sheen, como Tony Blair. Mesmo vivendo personagens ainda vivos e conhecidos, os atores dão um verdadeiro show.

A narrativa meio lenta pode afastar os mais chegados ao cinemão americano, mas o filme é interessante e merece a conferida. De preferência, como eu fiz: no conforto do meu lar, na minha televisão.

Latter Days, de C. Jay Cox

latter days Latter Days, de C. Jay Cox

O amor entre pessoas diferentes já foi tema de diversos filmes. Da diferença de classes aos amores impossíveis, esta aí, quase sempre, uma boa história para um filme. Mas, e quando o amor surge entre iguais, mas com posturas diferentes? No caso de Latter Days, os iguais são dois homens, mas com posturas de vida totalmente opostas.

Dirigido por C. Jay Cox em 2003, Latter Days conta a história de Christian, um gay de 20 e poucos anos, assumido e cujo maior desafio na vida é flertar e conquistar outros homens. Ao lado de seus amigos, todos garçons de um restaurante de Los Angeles, ele vive sua vida e suas “paixões” diárias.

latter 1 Latter Days, de C. Jay Cox

Enquanto isso, Aaron Davis é um mórmon que acaba de se mudar para o mesmo condomínio de Chris. Junto com outros três missionários mórmons, o “Elder” Aaron Davis é um jovem que tem a religião da família ultra-conservadora como modelo e seguiu os passos que esperavam dele. Até que ele conhece Chris e uma história de amor se desenha.

Contando com uma boa dose de drama, Latter Days é um filme simples e sincero, daqueles que conseguem emocionar sem soar como um manifesto. Apesar da temática gay da história – e do espinhoso assunto religião incluído no roteiro – a trama é leve, apesar dos momentos bastante dramáticos.

latter 2 Latter Days, de C. Jay Cox

Vale notar alguns nomes do elenco. Jacqueline Bisset faz o papel da dona do restaurante onde um dos protagonistas trabalha e é como uma mãezona de todo o pessoal. Além disso, é interessante notar os primeiros passos na carreira de ator de Steve Sandvoss (Dizem Por Aí, O Jogo do Amor), que vive Aaron.

Melhor ainda é Joseph Gordon-Levitt. O jovem ator, que chamou atenção no aclamado 500 Dias Com Ela e em A Origem (além de ser o novo Homem Aranha dos cinemas), faz um papel de coadjuvante como um dos missionários que dividem a casa com Aaron.

Leve, simples e com uma mensagem de tolerância à diversidade e contra o extremismo religioso. Latter Days vale a pena e é recomendado.

Lição de Amor, de Federico Moccia

licao de amor Lição de Amor, de Federico Moccia

Desde que li Desculpa Se Te Chamo de Amor - e, mais recentemente, sua continuação, Desculpa, Quero Me Casar Contigo – e soube que o primeiro livro tinha uma versão cinematográfica, fiquei curioso para acompanhar essa história em outra mídia. Gostei razoavelmente dos dois livros e ter a oportunidade de ver os cenários e personagens imaginados por mim transpostos para a realidade do cinema me causou curiosidade. Então, entre uma pesquisa e outra cheguei até Lição de Amor, título ridículo no Brasil, para o filme italiano de 1999 baseado no primeiro livro.

O que eu não imaginava era que o diretor do filme fosse o mesmo Federico Moccia, autor dos romances. Assim sendo, pensei que o filme poderia ser tão ou mais divertido que os livros, mas acabei me enganando. Embora tenha um enredo até que interessante para desenvolver, Federico Moccia mostra, como diretor, que deveria apenas escrever livros. Sua versão para os cinemas de sua própria história é sonolenta e chata. Somente como exemplo: querendo soar criativo, os recursos de citar nos livros frases de diversos autores conhecidos para enfeitar a história, no filme soa desproposital e gratuito.

A história é a mesma do livro original: Alex, um publicitário de 37 anos, está numa depressão depois que foi largado por Helena, a quem havia pedido casamento. Num belo dia, literalmente atropela Nikki, uma jovem de 17 anos, que cruza um sinal e bate com sua moto no carro de Alex. A partir daí, numa dinâmica de encontros orquestrados por Nikki, o casal acaba se apaixonando.

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As comédias românticas, em geral, seguem a fórmula pronta do casal que se conhece e devido às diversas circunstâncias não podem ficar juntos, para que isso aconteça somente no final. Aqui, o charme da história fica na diferença de 20 anos de idade dos protagonistas.

Os demais personagens são bem interessantes, mas unidimensionais demais na transposição do livro para o cinema. Pietro, Enrico e Flávio – e suas respectivas esposas ,- amigos de Alex; e Olly, Diletta e Erica, amigas de Nikki, não dizem a que vieram e são apenas suportes bobos dos dois protagonistas. Os pais de Nikki, que poderiam ser colegas de Alex devido à aparência física, são sub-aproveitados e a história é rasa demais.

O que vale a pena no filme é a fotografia, com suas belas paisagens e o tour que fazemos por Roma e vizinhança. As tomadas são belíssimas e acompanhar os personagens por aqueles cenários é bem prazeroso – se você se mantiver acordado durante o filme, já que a história não é contada de uma forma que isso seja muito possível.

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Então, a dica é: leia o livro que originou o filme. Vale bem mais a pena. E se, e somente se, você for como eu, assista o filme para comparar as duas obras e ter certeza de que quase sempre o livro é melhor do que o filme. Em Lição de Amor isso é mais que verdadeiro.

Pão e Tulipas, de Silvio Soldini

pao e tulipas Pão e Tulipas, de Silvio Soldini

O mote de se perder para se encontrar é quase um clichê cinematográfico. Vários são os filmes em que vimos personagens ‘perdidos’ – metafórica ou literalmente – em busca de seus caminhos e, durante a projeção, encontrando-se numa verdadeira odisséia particular. Pão e Tulipas, filme italiano de 2000, usa a mesma premissa para construir uma história divertida e tocante sobre o tédio e a solidão familiar.

Acompanhando a história de Rosalba, uma dona de casa que, numa excursão com sua família, é esquecida numa parada de ônibus e num impulso decide ir até Veneza ao invés de voltar para sua casa, o diretor Silvio Soldini cria uma história com tom de fábula que, pouco a pouco, vai enlaçando o espectador. Rosalba, aparentemente uma mulher submissa ao marido e presa em seus afazeres, uma vez em Veneza vai esticando sua estadia no que ela chama de ‘férias’ da própria família. Sem dinheiro, é acolhida por Fernando, um garçom de cantina, que lhe oferece um quarto. Arranja um emprego numa floricultura e, pouco a pouco, vai construindo uma nova vida, distante da que deixou, até que surge um ‘detetive particular’ contratado pelo marido para levá-la de volta para casa.

A câmera de Soldini nos mostra uma Veneza distante do cartão postal em que ela é comumente vendida. Em Pão e Tulipas, Veneza até tem um ou outro encanto, as gôndolas continuam lá, mas a cidade em si é feia e suja, passando uma sensação meio claustrofóbica na tela. As ruas apertadas, os imóveis feios e velhos, tudo na cidade nos dá uma sensação oposta à da liberdade encontrada por Rosalba ali. Intencional ou não, funciona bem.

pao tulipas Pão e Tulipas, de Silvio Soldini

Costurando a história, Rosalba vai interagindo com outros personagens. Fernando, que a acolhe, é um homem que até sua chegada pensava em se matar, apesar do amor que sente pelo neto que ninguém sabe que existe. Já a vizinha de Fernando e nova amiga de Rosalba, acaba se apaixonando pelo detetive que surge na história para – em vão – conduzir a personagem principal de volta para sua família. O elenco, bem entrosado, é competente e dirigidos por Silvio Soldini entregam um bom desempenho.

Pão e Tulipas é daqueles filmes de tom um pouco acima, que nos diverte por suas surrealidades e mensagem de que tudo no final acaba dando certo. É uma história para aqueles que gostam de romance, mas que não se importam de vê-lo contado de uma forma diferente das vistas nas comédias românticas americanas. É filme para ver e deixar um singelo sorriso brotar no seu rosto.