
Não sou fã de nenhum tipo de esporte e nem costumo acompanhar nada religiosamente, nem futebol, apesar da obsessão generalizada. Por isso, o impulso que me fez assistir Senna, de Asif Kapadia, está muito mais ligado ao mito Ayrton Senna, e não ao piloto em si. Indicado ao prêmio Bafta 2012, o documentário ficou guardado um bom tempo por aqui, até que finalmente resolvi parar para ver. E a sensação depois de seu encerramento é uma mistura de entendimento pelo que ele foi, e um certo pesar por ter sido jovem demais para acompanhar de perto seu impacto nas manhãs de domingo no Brasil.
Lembro vagamente de acordar com a música que se tornou seu tema, assim como a expressão de parte de minha família no dia em que ele morreu. Contudo, acho que foi só depois de ler O Herói Revelado, de Ernesto Rodrigues, e agora com o doc, que me dei conta do peso do esportista. Claro que já sabia de suas proezas na pista, com histórias sobre corridas e afins, mas é diferente de ver os recortes de sua vida reunidos em um filme com cara de ficção.
Narrada a partir de cenas e depoimentos do piloto, e com intervenções de figuras ligadas à sua vida – bem como algumas características narrações de Galvão Bueno -, essa não é uma obra para quem pretende desfazer a ideia de heroísmo que se tem dele. Porém, apesar do grande risco de tornar tudo motivacional demais, existe um certo equilíbrio que não o torna cansativo. Na mesma medida em que momentos de sua vida pessoal aparecem, conflitos e politicagens dos bastidores da fórmula 1 ganham bastante peso, com uma boa dose de polêmica.
Particularmente, justamente por não ser uma fã, os conflitos travados foram meus preferidos. Em todos os especiais que se vêem por aí, o lado controlado do piloto é sempre o mais apresentado. Contudo, durante o documentário, é possível desfazer um pouco dessa imagem, já que algumas discussões pontuais demonstram um lado mais humano, talvez. Além de criar uma situação clara de antagonismo, tal como costuma acontecer em uma obra ficcional.
Na verdade, chega a ser ridículo dizer isso, mas ao longo das cenas, é impossível não manter um desejo de final feliz. Mesmo sabendo de grande parte dos passos e consequências dos principais acontecimentos, a narrativa prende e consegue causar uma reação genuína. E isso vale tanto para a morte trágica como para pequenos detalhes, como suas discussões com Jean-Marie Balestre, chefe da categoria na época, ou ainda a disputa com Alain Prost. O francês, por sinal, é responsável pelo único momento em que aparece alguma dúvida sobre a retidão do caráter de Senna. Ainda assim, todo contexto é focado exclusivamente no lado vitorioso e persistente do protagonista, o que não é necessariamente algo ruim.
Por priorizar suas conquistas na pista, uma produção como essa não poderia seguir um caminho diferente. Assim como eu não gostaria de ver mais do que uma cena (constrangedora) ao lado de Xuxa, por exemplo, tenho certeza que dar enfoque a algum possível fracasso seria um tiro no pé. Querendo ou não, o motivo pelo qual Senna se tornou mítico está no sucesso que representou para o mundo, em especial para o Brasil vivido na época. Tenho algumas ressalvas com as imagens de pobreza extrema apresentadas para exemplificar sua importância por aqui, mas não dá pra negar sua influência na auto estima local.
Resumindo, assistir ao documentário é algo interessante e até prazeroso, por lembrar ou conhecer uma época distante. Ao mesmo tempo, cria inegáveis questionamentos sobre como poderia ter sido sua vida no esporte, caso seus rumos fossem diferentes. Não sei se dá pra dizer que é necessariamente uma obra prima, mas considerando o grande número de filmes altamente fúteis que surgem por aí, é sem dúvida uma boa opção. Possivelmente ainda melhor para quem o tem como ídolo.











