
Pouco mais de quatro meses se passaram após o lançamento de “N9ve”, último álbum de estúdio de Ana Carolina, e o tempo parece apagar os efeitos do novo trabalho da cantora, que só não supera as baianas do axé em execuções nas rádios, porém contando com a força de sucessos do passado.
Dos botecos de Juiz de Fora até o sofá de Jô Soares se passaram anos, mas a voz de Ana Carolina é inconfundível. Potente, inebriante, mas com um repertório que volta e meia dá impressão de que houve repetições. Com letras confessionais, como 10 minutos, Ana Carolina abre os trabalhos com aquele mesmo papinho de boteco:
“Por que você não atende as minhas ligações? Sei que você tem lá suas razões. Olho milhões de vezes sua foto. Me pergunto em que ponto perdemos o foco… Fora, seu silêncio me devora. Algo diz pra eu ir embora. Não entendo os seus sinais. Mas fica com você. A desculpa pra inventar. Quando resolver ligar. Posso não te querer mais”.
Triste, não? Mas é assim que a ex-cantora dos botequins abre as suas nove facetas, num trabalho que já lhe rendeu o disco de ouro, por pouco mais de 50.000 cópias vendidas. Mas os próprios fãs se inquietam, já que o número de vendas é bem inferior aos membros da comunidade no ORKUT, com 490.845 pessoas que a tratam como a grande diva da MPB.
Caso o amigo internauta não seja chegado a um melodrama, passe longe da faixa 2, Dentro, onde a cantora diz que se escondeu dentro de um ser humano e não sabe como sair, com uma letra repleta de frases soltas. O hit Entreolhares, segundo fontes da rádio MPB FM (RJ), está e sempre esteve longe de ser uma música campeã de pedidos entre os ouvintes e internautas da emissora, sendo executada apenas uma ou até duas vezes por dia em toda a programação.
“Nove” exige muito da paciência de quem não é fã de Ana e procura entender a mensagem passada pela artista. Vale destacar Resta, um dueto com Chiara Civello. No mais, com tentativas frustradas em introduzir o tango e toques de eletrônico, Ana passa a impressão que ainda quer e tem muito a provar.
Até aqui foram mais de 200 músicas gravadas em discos, em nove anos de carreira. Ana Carolina me faz lembrar da esquecida Rosanah Fiengo, que hoje se apresenta em boates nos confins do país, o seu maior reduto. Para quem não lembra, Rosanah fez grande sucesso interpretando O Amor e o Poder (a popularmente conhecida COMO UMA DEUSA). Assim como a colega mineira, Rosanah insistiu em repertórios parecidos e não conseguiu renovação de público. Não há interesse aqui de prever o fim de Ana Carolina no alto escalão da indústria cultural de massa, pois equivaleria a se apropriar do cargo de Nostradamus. Mas “N9ve”, por exemplo, dá uma sensação de que a cantora se incomodou com as críticas ao seu antigo trabalho, “Dois Quartos”, quando seus devaneios e excessos machucaram os ouvidos de quem não estava acostumado a um bar esfumaçado e de acústica ruim. Ela tentou se reinventar e pouco de novo mostrou.
Eis que a cantora nos brinda agora em dezembro, com Ana Car9lina + Um – tal como exposta nas capas do CD e DVD, ficando a sugestiva leitura que faz alusão aos seus nove anos de carreira. Em síntese, é a soma do álbum “Dois Quartos” e “N9ve”. Mais uma vez o repertório peca, principalmente porque não é um resumo digno de sua curta carreira; o recorte retrospectivo é péssimo. O lançamento se sustenta unicamente nos inéditos encontros da artista com colegas como Maria Gadú, na balada pseudo-blues Mais que a mim, sobra do CD “N9ve”; e Ângela Ro Ro em Homens e Mulheres, dueto que se revela curioso por conta da letra que prega a ambiguidade sexual. A julgar pelas intérpretes que estão no palco nesta última, a música gera estranhesa aos mais conservadores – é fato que ambas são espadas da MPB que possuem um público apaixonado.
A julgar pelo clima de sarau, criado no show dirigido por Monique Gardenberg e produção musical de Alê Siqueira, o trabalho pode ser considerado artificial por alguns porque há um clima de espontaneidade ensaiada. Porém, Ana Car9lina + Um acaba nos brindando com uma maravilhosa interpretação de Zizi Possi em Ruas de Outono, música até então imortalizada na voz de Gal Costa. Zizi superou todas as expectativas, superando a gravação original da autora e a imediata regravação da verdadeira baiana.
Infelizmente Ana Car9lina + Um expõe a cantora ao ridículo quando a própria, em atuação solo cantando 10 Minutos (disponível apenas no DVD), faz caras e bocas com direito a poses dramáticas que mais parecem com um videoclipe mal feito dos anos 70. A regravação de 10 minutos nem sequer é justificável, já que encontramos essa aberração da natureza em N9ve, lançado em agosto de 2009.
Como nem tudo são trevas, o público poderá ver o clássico Tá Rindo, É? nas vozes afins de Ana e Seu Jorge, que repetem o encontro que rendeu o CD/DVD Ana & Jorge (2005), com uma vibração única. O entrosamento de Ana com Gilberto Gil em Torpedo acaba convencendo pela fina sintonia entre ambos. Luiz Melodia salvou Cabide com sua ginga de malandro ao microfone; e Roberta Sá no dueto com Ana, deram um novo charme a Milhares de Sambas. Mas o desempenho da novata não chega perto do obtido por Maria Rita em “Samba Meu”.
A lógica diz que 9 + 1 = 10. Ana Carolina demonstra ser igual à preocupação com o futuro sobre a mesmice. Enfim, a obra é bacana para ser ofertada como presente de Natal para quem a pouco conhece.
Saudades daqueles tempos de botequim.


