
Quando eu ouvi falar pela primeira vez em A Arma Escarlate, logo pensei: “Ah, que ridículo, uma cópia barata de Harry Potter!” Mas logo começaram a pipocar pela Internet dezenas de resenhas maravilhosas sobre o livro, e eu resolvi dar uma chance para ele. Comprei. Qual não foi minha surpresa: o livro é fantástico! Nunca minha boca caiu tão rápido. Nunca tive que me retratar tão rapidamente. Nunca um livro brasileiro me empolgou tanto!
A Arma Escarlate, apesar de fazer discretas e divertidas referências à obra de J.K. Rowling, é um livro extremamente diferente, original, criativo e empolgante. Recomendo a todos os brasileiros, sem exceção. Mesmo aos que não gostam de Harry Potter ou de livros de fantasia em geral.
E vou dizer o porquê: o livro de Renata Ventura não fica preso apenas à magia. Muito pelo contrário. Há muito mais realidade do que fantasia em ‘A Arma Escarlate’. E essa é uma das maiores qualidades do livro: ele realmente nos faz PENSAR! Ele fala de drogas, de racismo, de desigualdade social, de violência, de abandono, de insegurança, de corrupção, de preconceito cultural, de criminalidade, de abuso de autoridade… fala de MUITA COISA! E tudo de uma forma super agradável, que nos faz pensar nos problemas do Brasil enquanto nos divertimos, nos espantamos, nos emocionamos com as ações, decisões e dilemas dos personagens principais. Um livro absolutamente lindo de se ler.
A Arma Escarlate conta a história de Hugo, um menino que vive na favela Santa Marta, no Rio de Janeiro. Hugo mora com a mãe e a avó em uma situação precária, sob constantes ameaças de Caiçara, braço direito do chefe do tráfico no morro.
E aqui começa uma das grandes diferenças entre A Arma Escarlate e Harry Potter: Quando Hugo descobre ser bruxo, ele vê nisso uma oportunidade para derrotar seu maior inimigo e para se salvar da situação insustentável em que se meteu.
Isso já o torna completamente diferente de Harry. Enquanto Harry inicialmente vê na magia uma curiosidade, Hugo a encara como sua única chance de sobrevivência. Em outras palavras: enquanto Harry vê a varinha como ferramenta, Hugo a vê como uma arma. E isso faz toda a diferença na trama.
Hugo é um personagem extremamente rico e complexo. Apesar de ter vivido a infância inteira em meio à violência, ele não se deixa transformar em simples vítima. Ele sempre precisou ser esperto para sobreviver, ser ambicioso, às vezes pensar em si mesmo antes de pensar nos outros. Só por isso ainda está vivo, mas também por isso, acaba levando sua realidade junto com ele para o mundo mágico.
É então que entra outra maravilha do livro: a comunidade bruxa brasileira. Que diferença para a comunidade britânica! A escola Nossa Senhora do Korkovado não poderia ser mais oposta à Hogwarts. Desorganização, falta de verba, corrupção, professores e alunos faltosos… uma maravilha. Lembra alguma coisa? Pois é. Escolas públicas não são sempre uma beleza no Brasil.
A Arma Escarlate é um livro que merece muito ser lido, pois imagino que haja poucas obras nacionais que tenham criado um universo ficcional tão rico e que, ao mesmo tempo, explorem a realidade tão profundamente.
Eu poderia ficar aqui o dia inteiro falando das qualidades desse livro: dos personagens multifacetados e apaixonantes, das situações que me deixaram de queixo caído e de coração na mão… dos momentos em que eu chorei e sofri lendo o livro… das risadas que eu dei… de tanta coisa, que acho melhor parar por aqui.
Leiam por vocês mesmos. Tomem suas próprias conclusões. Mas, sobretudo, leiam de mente aberta! (Já vi algumas pessoas criticando o livro por se passar no Brasil! Vê se pode! Quer país mais mágico do que o nosso?!)
colaboração dos leitores Miguel Ferraz e Gabriel Moreira
No final do ano passado, o Sem Tédio publicou a primeira opinião sobre A Arma Escarlate, de Renata Ventura, em resenha escrita por Leandro Faria. Agora, à pedido da autora, um novo espaço foi aberto para que outros leitores pudessem opinar sobre a obra, apresentando um ponto de vista diferente. Dessa forma, fica por sua conta apostar ou não na leitura do livro, e decidir com qual dos dois textos se identifica mais.













