A Menina Que Não Sabia Ler, de John Harding



Menina Ler A Menina Que Não Sabia Ler, de John Harding

Quase Memória, de Carlos Heitor Cony, é provavelmente o livro mais adoravelmente frustrante que já li. Toda sua narrativa é bem conduzida e o final deixa uma sensação agridoce, que embora ocasione uma vontade de não gostar, também faz acreditar que se fosse diferente, perderia completamente sua razão de existir. E, até agora, estou tentando entender se o mesmo pode se aplicar a A Menina Que Não Sabia Ler, de John Harding.

Sua história em nada lembra a de Cony, porém, existe uma sensação de dúvida em sua conclusão que lembra a obra nacional. Aqui, a protagonista é Florence, uma jovem órfã que quase não pode conhecer a magia da leitura, mas que no fim das contas, acaba sendo sugada por ela. Completamente ligada a seu irmão Gilles, sua história pode ser dividida em duas partes, uma um pouco mais lenta e outra em que os acontecimentos aceleram, à espera de um ápice que nunca chega, pelo menos não de maneira tradicional.

As primeiras páginas se dedicam basicamente ao dia a dia de Flo e o quanto desconhece suas origens, com um tio misterioso que nunca se deu ao trabalho de se apresentar e que não acredita que mulheres precisam saber mais do que bordado. É instigante imaginar que a força de vontade da menina a leva a fazer o que quer, apesar da proibição do tio. No entanto, o livro só começa realmente a ficar interessante a partir do momento em que a casa onde vive recebe a preceptora Srta.Tyler. Destinada a ensinar Gilles, ela se torna um grande mistério para a personagem principal. E, a partir daí, já não sei o que encarar como verdade de Florence, ou fruto de sua imaginação.

Por ser narrado do ponto de vista da órfa, é impossível saber o que realmente acontece. Todo um clima de suspense e mistério é construído em volta dessa mulher recém chegada, que quase não come e mantém uma ligação estranha com o irmão de Flo. No entanto, na medida em que as coisas caminham, é frustrante não conseguir descobrir as verdadeiras motivações de  praticamente todos que fazem parte do enredo. Na maioria do tempo, os personagens parecem bem separados, entre o bem e o mal, até que as coisas se tornam embaraçadas, e apenas a percepção do leitor pode definir quem realmente está do lado de quem.

Particularmente, até gosto de tramas assim, que fogem do maniqueísmo puro e simples. Entretanto, não consigo evitar me sentir enganada quando uma história caminha de maneira bem amarrada para determinado lugar e então, muda ou se perde no caminho. Não sei se dá pra dizer que a resolução de tudo tenha sido ruim, quanto mais penso no final, mais acho interessante e me sinto perdida. Ainda assim, é impossível não imaginar o quanto um final mais específico poderia tornar o livro mais empolgante, mais vivo, pelo menos pra mim.

A julgar pelas referências a Edgar Allan Poe, acredito que o objetivo não tenha sido mesmo esse, priorizando o lado mais perturbador e bizarro, menos tradicional. Nesse sentido, é uma leitura que vale a pena. Porém, tenho certeza que não a ponto de se tornar obrigatório. Especialmente para quem gosta de finais fechados (e não fica se remoendo quando eles não chegam).

 
Sobre Carla Gomes

Carla Gomes é viciada em séries e doente por livros. Jornalista, é adepta de qualquer história bem contada. Escreve para o Blog Na TV e de vez em quando pode ser encontrada no Twitter: @_CarlaGomes_

Comentários

  1. Raquel disse:

    Oi Carla.
    Tenho este livro em casa e já li umas duas vezes.
    É um dos melhores livros que já li.
    Ele prende nossa atenção, dá vontade de ler ele todinho em um só dia.
    A primeira vez que li, mesmo chegando no final da história, eu não entendia a real motivação da Srta. Tayler com Gilles, mas depois da segunda vez que li, comecei a juntar as peças e entendi toda a história.
    Para aqueles que gostam de aventuras, um pouco de suspense e ação, vale a pena ler.
    Parabéns pelo site. Sucesso sempre. Beijos

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