Se em alguma parte de minha memória ainda existia a lembrança de que anjos se parecem com o menininho loiro de olhos azuis de Maurício de Souza, essa imagem foi completamente substituída depois de ler A Batalha do Apocalipse. Mas não, isso não tem nada a ver com fé ou crenças – até por que essa não é a motivação do livro – e sim com a narrativa minuciosa de Eduardo Spohr.
Durante toda história, é possível embarcar completamente nos cenários descritos e nos personagens criados a partir de pesquisas, lendas e doses essenciais de criatividade. Em diversas entrevistas, o autor falou sobre o quanto foi influenciado por jogos de RPG, e fico feliz em dizer que, mesmo não conhecendo absolutamente nada sobre esse mundo, me encantei com o universo criado por ele.
Ainda assim, não diria que a leitura de AbdA é necessariamente fácil. Os detalhes exigem uma atenção extra, que só valem a pena por que tudo é conduzido de uma maneira envolvente. Se no começo senti uma certa relutância em me dedicar ao protagonista, aos poucos me vi cada vez mais instigada a conhecer Ablon, o Renegado, com ares de anti heroi.
Durante toda sua trajetória,o personagem conquista por sua obstinação e principalmente por não cair na armadilha da romantização. Seria fácil recorrer a contos de fada e colocá-lo como alguém puro, bonitinho, adorável, no entanto, sua força está justamente em fazer o que precisa e não se condoer por remorsos e culpas. Talvez por isso, a humanidade de Shamira tenha sido tão essencial para conseguir imprimir carisma à história.
Essa espécie de parceria desenvolvida com a Feiticeira de En-Dor serviu como pano de fundo para o que, teoricamente, seria o principal acontecimento do livro, o apocalipse. Entretanto, particularmente, o que mais me agradou foi a jornada que levou a isso.
Desde a ruína de Babel e a tentativa de salvar a última renegada Ishtar, os encontros e desencontros entre os dois protagonistas conseguiram seguir uma longa linha temporal sem se tornar enfadonhos ou contar com um tom excessivamente histórico. Depois de ser expulso do céu, Ablon vagou pelos mais diversos acontecimentos à espera do juízo final e do momento em que finalmente conseguiria ultrapassar a barreira do mundo espiritual. Enquanto isso, Shamira seguiu seu caminho em busca de conhecimento, conseguindo alcançar uma vida longeva. Sem nunca esquecer do elo que os ligava de alguma maneira.
Mas isso foram apenas detalhes em meio a um enredo que conseguiu falar sobre a natureza humana de um jeito bastante sutil. À medida em que passava pela Roma antiga, pela queda de Constantinopla e outros, conhecemos Lúcifer, Apollyon, Miguel, Gabriel, e tantos outros, que conseguiram representar o bem e o mal, a dúvida e a retidão.
Quando mencionei no começo que o livro nada tem a ver com crenças individuais, é por que acredito que seja possível perder o enfoque e tomar a trama como uma verdade pessoal, em que Deus e céu estão presentes na alma de cada um. Contudo, pelo menos pra mim, o tom despretensioso do livro indica que não quer fingir ser mais do que é, um enredo ficcional.
Enredo esse que, mesmo com momentos mais lentos, alcança um ápice surpreendente em seu final. Apesar das trombetas soando cada vez mais rápido, não tinha certeza se seus rumos seriam mesmo os mais extremos. Mas confesso que, mesmo gostando muito da luta travada entre os exércitos, ainda fico em dúvida sobre a necessidade de utilizar o artifício das runas para resolver tudo. E principalmente sobre a conclusão em aberto, que não permite saber se deviam ou não ter voltado a Roda do Tempo.
De qualquer maneira, fazia muito tempo que um livro não conseguia me prender em todas suas nuances.
Destaco novamente o trabalho cuidadoso e a narrativa detalhada de Spohr, que comprova que muitas histórias de qualidade ainda podem estar escondidas por aí, à espera de uma oportunidade. Não vou me desmanchar em elogios vazios, mas resumidamente, se existe uma lista de prioridades da literatura brasileira, ABdA sem dúvida deveria estar no topo.




Olá Carla!
Adorei sua análise do ABdA… realmente concordo com vc quando disse que a história se torna bem mais interessante “por não cair na armadilha da romantização”… Existe uma preocupação do Eduardo de proteger a ação e a motivação do personagem e ao mesmo tempo traz também a indicação do romance que percebo como secundário na história como um todo. Estou realmente empolgado com a atual cena da fantasia no Brasil, temos o Eduardo Spohr e o Raphael Dracco como exemplos. Na minha fila de livros à ler está o “Filhos do Éden: Herdeiros de Atlantida”, escrito tbm pelo Eduardo e que se passa no mesmo universo de ABdA… Vamos incentivar a literatura fantástica brasileira (que seja com qualidade, lógico)
Oi, Ayrton, td bem!? Fico feliz por ter gostado (:
O cuidado do autor com a história é um dos pontos fortes do livro, já que seria muito fácil seguir por um caminho motivacional (e vazio).
Escrevi recentemente sobre o primeiro livro da trilogia Dragões de Éter, do Draccon, e também me surpreendi ao perceber tem muito autor brasileiro de qualidade por aí, às vezes não tão (re)conhecido.
Coincidentemente, comecei a ler o Filhos do Éden ontem, e embora ainda esteja no começo, o estilo parece ter se mantido à altura de ABdA. Merece ser divulgado e incentivado cada vez mais.